Por Aline Maciel
Quando a reflexão é sobre superar desafios e abraçar as múltiplas versões de si mesma
A pressão para que as mulheres escolham apenas um papel na vida (mãe, profissional ou esposa) ainda é realidade. Em contraponto a essa ideia, um bate-papo online promovido pelo Vez & Voz propôs uma reflexão sobre a multiplicidade feminina, o autoconhecimento e os desafios de conciliar diferentes identidades sem carregar o peso da culpa.
A palestra foi conduzida por Jaciará Novaes, mentora e terapeuta, que destacou como, historicamente, as mulheres foram ensinadas a ocupar espaços limitados.
“A vida inteira fomos aconselhadas a caber apenas em determinado lugar. Existe até um ditado muito conhecido: sorte no jogo, azar no amor. Como se ter as duas coisas fosse proibido”, afirmou.
Segundo ela, muitas mulheres carregam a culpa por desejarem ser mais de uma coisa, quando, na verdade, a pluralidade faz parte da essência feminina.
Durante o bate-papo, a especialista abordou os impactos de tentar corresponder às expectativas alheias. Para ela, esse comportamento pode levar a relações desiguais, à perda da identidade e até à permanência em relacionamentos abusivos.
“Há mulheres que já abandonaram sonhos e planos e não sabem mais quantas versões existem dentro de si. Viver pela expectativa do outro é corrosivo e extremamente exaustivo”, ressaltou.
Novaes comparou esse processo a um copo que recebe pequenas gotas diariamente até transbordar. O resultado, segundo ela, costuma aparecer na forma de esgotamento emocional, doenças físicas e comportamentos compensatórios que comprometem a qualidade de vida.
A palestrante também chamou atenção para a sobrecarga constante enfrentada por muitas mulheres, que frequentemente ignoram seus próprios limites.
“Elas carregam tanto peso por tanto tempo que chega um momento em que o corpo simplesmente para. Surgem o burnout, a depressão ou até vícios utilizados como forma de compensar a insatisfação”, observou.
Outro ponto discutido foi a cultura da produtividade excessiva. De acordo com Novaes, muitas mulheres foram condicionadas a acreditar que trabalhar sem parar é sinônimo de sucesso.
“O que não é verdade. E, quando descansam, mesmo que de forma forçada, sentem culpa. A culpa, assim como a vitimização, paralisa”, destacou.
Identidade
Outro ponto defendido pela mentora é que a gente vive o que acredita que merece viver. Para ilustrar seu argumento, Novaes apresenta dois contos da literatura infantil para ilustrar a perda de identidade e o conformismo.
Ao citar Branca de Neve, que perdeu a mãe, ela destacou a importância de manter a própria identidade mesmo diante das adversidades. Em contraste, utilizou a figura da madrasta que perguntava ao espelho ‘quem era a mais bela do reino’, representando os riscos de buscar constantemente validação externa.
“Quem nos tornamos quando algo não sai como planejado? Isso tem tudo a ver com identidade. Quem você se tornou para sobreviver e quem você nasceu para ser?”, questionou.
Já a personagem Alice, de Alice no País das Maravilhas, foi usada para reforçar a importância de ter clareza sobre os próprios objetivos.
“Quando Alice está conversando com o Gato, ela pergunta: — Para que lado vamos? Ele responde: — Não sei, tanto faz. Se você não sabe para onde vai, qualquer lugar vai te servir”, acrescenta.
Mudança de vida
Novaes também compartilhou experiências pessoais marcadas por desafios profundos. Entre eles, uma perda gestacional, o abandono do parceiro durante a gravidez e depois um processo de divórcio traumático. Esses acontecimentos desencadearam um período de intensa fragilidade emocional, seguido pelo surgimento de problemas de saúde.
“Esse é o meu lado B, o que as pessoas não veem nas redes sociais. Houve um momento em que eu estava extremamente machucada, confusa e sem saber quem realmente era”, relatou.
A partir desse processo, a palestrante desenvolveu o que chama de método MAPA, um acrônimo para Maturidade, Autonomia, Poder e Ativação. Sendo que:
– Maturidade está relacionada à autorresponsabilidade.
– Autonomia consiste em viver de acordo com as próprias crenças e valores.
– Poder representa a coragem necessária para agir e promover mudanças.
– Ativação significa olhar para a vida com mais atenção, restaurando relações desgastadas e fortalecendo projetos pessoais.
Como exemplo prático dessa transformação, Novaes citou decisões importantes tomadas ao longo de sua jornada de vida, como pedir exoneração de um concurso público, abrir uma empresa, reorganizar a vida espiritual, melhorar a saúde física e realizar palestras.
“Uma das coisas mais importantes que aprendi foi: não dê acesso a quem não te dá destino. Quando entendemos isso, passamos a ocupar uma nova versão de nós mesmas”, afirmou.
Infinitas versões de uma mulher
Ao final do encontro, Novaes retomou a pergunta que deu título à palestra: quantas mulheres cabem dentro de uma mulher?
A resposta veio sem hesitação.
“Cabem infinitas mulheres dentro de você. A questão é: qual delas você escolhe alimentar? Durante muito tempo deixei governarem a minha vida a mulher irritada, procrastinadora e aquela que aceitava migalhas. Essas versões continuam existindo, mas hoje entendo ser minha responsabilidade decidir que terá força dentro de mim a bem-humorada, proativa e sonhadora.”
Para a palestrante, o sofrimento não precisa ser permanente. Quando a mulher reconhece e aceita todas as suas versões, deixa de pedir permissão para existir e passa a ocupar seu espaço de forma mais autêntica.
“Escolham viver com mais coragem e comprometimento com a vida. E aquelas que deixaram de fazer planos, permitam-se sonhar novamente”, concluiu.
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