Choque antiladrão
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Brasil é único país no mundo em que caminhões da Fedex são eletrificados contra roubo, diz VP da empresa

A violência no Brasil exige adaptações de segurança. Luiz Roberto de Andrade Vasconcelos, vice-presidente de Operação da FedEx Express no Brasil, uma das maiores empresas de logística do mundo, contou em entrevista exclusiva na série UOL Líderes, que o Brasil é o único país no mundo em que a companhia utiliza caminhões com blindagem elétrica -dão choque de até 20 mil volts, que não mata, segundo a empresa.

Na entrevista, o chefe da FedEx também falou sobre a aceleração do comércio eletrônico e os investimentos crescentes da empresa no país. Sobre efeitos da pandemia, Vasconcelos disse que as reuniões ficaram mais “civilizadas” e os chefes, mais flexíveis.

Como a Fedex trabalha com a questão do roubo de cargas no Brasil?

Luiz Roberto de Andrade Vasconcelos – Temos na nossa frota o que chamamos de veículos eletrificados*. São carretas que têm uma manta eletrificada entre a parte interna e a externa, que protege o interior do veículo contra uma tentativa de arrombamento.

Sensores aplicados nos compartimentos de carga dos caminhões dificultam seu rompimento e disparam um choque elétrico de 20 mil volts (não letal), suficiente para interromper a ação criminosa sem causar danos físicos às pessoas, segundo a empresa.

Esse é um tipo de equipamento que, no caso da FedEx, não existe em nenhum outro local do mundo. É a chamada tropicalização.

Ele é utilizado predominantemente para mercadorias de alto valor agregado ou itens com alta procura pela questão da criminalidade, como aparelhos celulares e computadores.

Quando os drones de entrega serão uma realidade no Brasil?

Luiz Roberto de Andrade Vasconcelos – Os drones têm um apelo muito interessante porque são uma forma curiosa de transporte.

Mas especificamente na logística estamos um pouco distantes daquela visão de um monte de drones voando pelo céu. Isso não quer dizer que não estejamos estudando as várias possibilidades.

É possível empregar mais pessoas usando a tecnologia?

No âmbito geral, a tecnologia trouxe mais bem-estar do que foi, possivelmente, uma corrompedora de empregos.

É fato que, no primeiro momento em que há uma grande inovação muito disruptiva, ela vai causar impacto imediato. Mas, assim como o ciclo natural da vida, a economia se ajusta e as pessoas também se adaptam.

O que mudou com a pandemia na FedEx?

Luiz Roberto de Andrade Vasconcelos – Culturalmente eu diria que, como foi para todos, para nós também foi um desafio interessante no começo até as pessoas se habituarem às ferramentas e à nova estrutura de escritório dentro de casa, mas as pessoas se adaptam rapidamente.

Eu brinco que as reuniões ficaram mais civilizadas porque precisamos fechar o som em determinados momentos. Reuniões que fazíamos antes, trazendo pessoas do Brasil inteiro para São Paulo, agora conseguimos fazer de forma virtual.

Isso sim é uma coisa que vai mudar. Poderemos estar mais próximos sem precisar pegar um voo de longas horas.

Outra brincadeira é que, no passado, quando alguém dizia que iria trabalhar de home office os outros diziam “não vai trabalhar, está inventando uma desculpa para ficar em casa”. Agora sabemos que trabalhamos até mais, porque não tem a parada do almoço, não tem trânsito para ir e vir.

Os chefes estão mais flexíveis?

Sem sobra de dúvida, até porque essa necessidade de flexibilidade afeta todo mundo. A empatia ajudou também os chefes a serem mais flexíveis e a poderem entender as dores comuns de todos nós.

Em algum momento vocês tiveram que parar as entregas por causa da pandemia?

Trocamos o pneu com o caminhão andando. Nós continuamos operando 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, com aviões pousando e decolando todos os dias.

Operamos em um nível maior de intensidade maior porque estávamos viabilizando coisas que eram importantes como importação de máscaras e de equipamentos para combater a covid-19.

Trouxemos também produtos para ajudarem as pessoas a fazerem home office, como computadores, celulares e fones.

Qual é o principal gargalo do setor logístico do país?

Luiz Roberto de Andrade Vasconcelos – O Brasil ainda precisa de uma maior expansão e qualificação de suas rodovias, de seus portos, ferrovias e aeroportos.

Esses fatores estruturais são a base e a plataforma do nosso negócio. Precisam funcionar com confiabilidade. Os aeroportos têm que funcionar bem e nos horários corretos, as rodovias também, os portos e ferrovias também.

Se você comparar regionalmente a qualidade das estradas, os Estados que mais recolhem impostos no Brasil têm estradas muito melhores. Precisaríamos dessas condições no país inteiro para que os veículos pudessem rodar melhor, com menos acidentes e menos custo operacional.

As estradas dos Estados mais ricos são melhores por empenho do poder público ou pelas privatizações?

Acredito que sejam os dois fatores. Como tudo na vida, não existe uma única bala de prata que resolve tudo.

Existem diversas rodovias que foram privatizadas e que funcionam muito bem, assim como nos estados que tiveram recursos para investir, as rodovias estaduais também funcionam muito bem.

Qual a sua opinião a respeito da privatização dos Correios?

Se a privatização for construída, entendida e desenhada com uma forma que seja positiva para o Brasil, positiva para os Correios, positiva para o consumidor final. Acho que é muito válida.

O quanto a burocracia brasileira impacta nos negócios da FedEx?

Observamos que o governo federal e os governos estaduais têm avançado bastante na automação de algumas ferramentas.

Hoje, por exemplo, no segmento de transporte há o manifesto eletrônico de frete. Várias coisas que dependiam exclusivamente de processos manuais ou físicos em papel há anos agora passam por uma cadeia muito mais eletrônica.

A nossa expectativa é que essas mudanças continuem para que as passagens entre postos fiscais fiquem mais rápidas e menos complexas, para que as idas e vindas de aeroportos, não só de cargas e mercadorias, mas de pessoas também, fluam melhor.

Como explicar para os diretores da matriz nossa burocracia e carga tributária?

Luiz Roberto de Andrade Vasconcelos – Culturalmente a empresa entende como funciona o Brasil, sabe das suas nuances, entende as peculiaridades. Nós brasileiros nos imputamos mais do que o mundo nos imputa.

Acredito que os americanos conseguiram se tropicalizar o suficiente para entender que, acima de tudo, é um bom lugar para trabalhar, um bom país para operar.

Quais foram as principais transformações do mercado de logística nos últimos anos?

A principal transformação que já vinha acontecendo, obviamente que mais madura em outros países como os Estados Unidos, mas acelerada pela pandemia, é o evento do e-commerce.

Algo que foi muito positivo durante esse processo de aceleração, ou seja, durante a pandemia, é que a experiência do consumidor também foi muito positiva.

Não houve problemas de entrega e reclamações?

Obviamente, no primeiro momento, houve esse desafio adicional de tentar atender todos ao mesmo tempo com a mesma expectativa. Porém, a capacidade foi se regulando e, enfim, as pessoas puderam receber nos prazos adequados.

As empresas de logística também mudaram a forma como se relacionam hoje com seus clientes?

Luiz Roberto de Andrade Vasconcelos – O desafio interno da logística foi fazer com que os produtos chegassem mais rápido a locais cada vez mais distantes, como no interior do Estado do Amazonas, por exemplo.

A logística tem sido prazerosamente desafiada a conseguir satisfazer esses clientes e empresas. Se o produto chega em três dias, agora quero receber em dois. Se chega em dois, agora quero receber em um dia. Se chega no mesmo dia, eu quero receber antes das 10h.

Essa é a natureza do ser humano. Estamos sempre achando que foi rápido ontem e não é mais rápido hoje.

Qual é o principal negócio hoje da FedEx no Brasil?

A FedEx está posicionada em três principais linhas de negócio. Um negócio internacional, que são aviões que saem de Viracopos, em Campinas, e conectam o Brasil com Memphis [Estados Unidos].

Um segmento de negócio, que é de logística, com armazenagens e controle de inventário e em que trabalhamos para o segmento de meios de pagamento. E o negócio mais tradicional, que é o transporte de cargas domésticas.

Quais são os investimentos que a FedEx deve fazer em 2021 no Brasil?

Nos últimos sete meses, abrimos sete novos centros de distribuição de logística espalhados pelo Brasil, do Nordeste até o Sul, da Bahia até Itajaí (SC).

Em São Paulo, abrimos um novo centro em Cajamar, com infraestrutura de tecnologia supermoderna e capacidade para operar clientes de logística, clientes de e-commerce, de segmento de meios de pagamento e de logística geral.

Qual foi a mercadoria mais inusitada que a FedEx já transportou?

Globalmente, tivemos transportes muito legais como o do primeiro Panda que saiu da China para os Estados Unidos. Transportamos também artefatos egípcios antigos, a taça do Super Bowl [principal liga do futebol americano]. É uma lista superlonga.

 


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