Boas práticas para transformação cultural e profissionalização da gestão em empresas familiares
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Qualquer empresa familiar enfrenta uma série de desafios na sua gestão, principalmente se ela ainda não foi profissionalizada. É dado que em algum momento a empresa (ou parte dela) seja gerida por pessoas que em condições normais não estariam ali – não possuem o talento, o jeito, o treinamento ou o interesse necessário. 

Este é só um problema entre outros que podem existir: herdeiros mais preocupados em gastar do que trabalhar, briga entre sócios, judicialização de questões (principalmente envolvendo espólio). São imensas as armadilhas que podem surgir neste tipo de ambiente, mas existe uma solução: mudar a cultura da empresa em direção a algo mais profissional. 

Transformar a cultura de uma empresa familiar para profissionalizá-la não é fácil, mas existem passos para isso. A gestão de pessoas – dentro e fora da família -, engajando e motivando, é peça fundamental para que isso seja feito de maneira efetiva, garantindo que a empresa funcione com o máximo de eficiência possível. Felizmente, existem ações que os gestores podem adotar para aumentar o nível de profissionalismo em empresas familiares, tornando-as ambientes mais profissionais, meritocráticos e eficientes.

Adquirir talentos

O primeiro ponto que uma empresa familiar precisa endereçar é a gestão de talentos internamente. É necessário adquirir e retê-los, principalmente quando não fazem parte da família, já que uma empresa só é tão boa quanto as pessoas que a compõem. É fundamental saber colocar as pessoas certas dentro do negócio e evitar transformar a empresa familiar em um cabide de empregos para pessoas com o sobrenome certo. 

Encontrar e reter gente boa costuma ser feito por meio de compensações e recompensas. Geralmente isso começa com um salário em linha com o que o mercado paga para seus pares. Mas há exceções. Empresas com boas reputações podem ser capazes de atrair talentos com valores mais baixos, enquanto o inverso pode ser verdade para as que são estigmatizadas. Outros fatores que podem atrair talentos com despesas potencialmente menores é investir nos funcionários com opções contínuas de desenvolvimento e opções sobre ações. Este é o primeiro passo para fazer alguém querer trabalhar em sua empresa. 

Recrutado o bom funcionário, garanta que ele tenha um ambiente que valorize seu desenvolvimento. Diferencie o bom desempenho de um ruim a partir de métricas e objetivos claramente ligados à missão da empresa. Isso dará um norte para quem trabalha em empresas familiares turbulentas, com múltiplos herdeiros tentando deixar sua marca. É especialmente importante para essas empresas conseguirem alinhar sua missão com objetivos e valores. 

O desempenho de uma pessoa é baseado em fatores que vão além do talento, experiência e motivação, como condições do ambiente de trabalho ou mercado. É normal que uma pessoa tenha um bom desempenho em alguns ambientes de trabalho, mas não em outros. Empresas familiares – principalmente aquelas com múltiplos membros da família envolvidos – podem ser complicadas de navegar para muitas pessoas. Por esta razão, é necessário profissionalizar para permitir que os talentos tenham sempre a possibilidade de registrar o melhor desempenho.

É preciso evitar o surgimento de um sistema de favoritos ou “panelas” – principalmente se membros da família são os instigadores -, ou negar às pessoas a oportunidade de serem julgadas por seus resultados. Tenha bônus claramente ligados ao desempenho, tanto no nível individual quanto em grupo. Isso pode ser importante para evitar que se desenvolva uma cultura corporativa de bajulação, em que as promoções são definidas por afinidade e não por resultado. 

Para tanto, é preciso determinar quais métricas de desempenho são realmente importantes, e manter a coerência. Se as pessoas são julgadas por conta de seus resultados, membros da família também precisam ser. Ver alguém se safar de um problema só por ser da família dona do negócio pode alienar profundamente um funcionário. Se os membros da família estão presentes no dia a dia, eles precisam ser o exemplo e devem ser julgados pelos mesmos fatores. 

Mantenha coesão do time

A cultura de uma empresa é importante para gerar um senso de pertencimento nas pessoas, de união. É importante garantir uma cultura forte e alinhada com a missão da empresa e não uma espécie de lealdade familiar. Valorize a colaboração e o trabalho em equipe, impedindo o nascimento de subculturas rivais e possíveis grupinhos. 

O processo de integração é extremamente importante, já que este é o momento chave para que novos colaboradores compreendam a cultura da empresa. Essa é a hora de passar tudo que é relevante e garantir a profissionalização da empresa: o funcionário chega e é introduzido a uma nova cultura, então a liderança deve garantir que ele receba a mensagem certa e esteja alinhado com a missão da empresa.

Criar vínculo desta pessoa com a empresa é fundamental para expandir o “tamanho da família”. Se pessoas fora da família começarem a se perceber como peças fundamentais, é bem provável  que problemas existentes sejam minimizados por conta das relações familiares e sejam criados vínculos duradouros entre funcionários e empresa. Uma organização mais forte é consequência. 

Gerir pessoas de forma que a família não se torne um pré-requisito para o sucesso dentro da corporação é o que garante o engajamento delas no longo prazo. As empresas precisam ser comandadas por quem apresenta resultados e possui competência para tal.  Então, só inclua os familiares se eles estiverem realmente preparados para disputar de igual para igual com funcionários independentes. 

Nesse ponto, a criação de opções sobre ações pode ser excelente para trazê-las para perto. Se as pessoas de fora da família se perceberem como sócias, elas trabalharão de maneira mais engajada, com dedicação para o negócio delas próprias e não de uma família à qual  não pertencem e não pertencerão jamais. Isso elimina o fator “sangue” e permite que cada pessoa atinja seu potencial. 

Desafie as pessoas a entregar mais resultado

Com os melhores talentos e engajados com a organização, o próximo passo é garantir que eles estejam desafiados a entregar mais resultados. As melhores práticas incluem a concepção de funções que compõem papéis distintos e importantes na organização, têm significado e promovem um senso de contribuição para a empresa, fazendo o talento se sentir parte integral do time. 

As pessoas se sentem satisfeitas com o trabalho de duas maneiras principais. A primeira é por meio de oportunidades de crescimento, aprendizado, resolução de problemas e exercício da criatividade existente no próprio trabalho. A segunda é pela compreensão de seu papel e valor do seu trabalho dentro da organização. Esse entendimento pode transformar o desempenho até nas tarefas mais mundanas e é excepcionalmente importante para garantir alto desempenho em empresas familiares, nas quais pessoas com o sobrenome “errado” podem sentir-se dispensáveis. 

Os gestores, familiares ou não, devem conseguir conectar os esforços de seus funcionários às metas de alta performance da empresa. Se forem incapazes de fazer isso, eles precisam conversar com seus próprios chefes e fazer ajustes para que as pessoas consigam desempenhar no seu potencial ou deixar a organização. Neste momento de reflexão, desafie os funcionários a pensar de forma mais ampla sobre como e poderiam contribuir para fazer a diferença para colegas de trabalho, clientes e investidores.

Oferecer aos funcionários oportunidades de crescimento e educação continuada pode ser altamente motivador para muitos. Os funcionários desengajados ou que estão subutilizados podem ser capacitados na educação continuada em assuntos pelos quais eles estão interessados e gostariam de aprender mais, mesmo que sejam aparentemente irrelevantes para seus trabalhos. É possível que novas ideias surjam e criem oportunidades para a empresa. 

Traga problemas para as pessoas, faça com que elas se sintam parte da elaboração da solução. Em ambientes e períodos de incerteza extrema, é comum que poucas pessoas tenham certezas absolutas e é extremamente saudável que você questione tudo. Engaje os funcionários a desenvolver uma cultura de testes e de inovação de maneira independente e ativa. Não deixe que sua empresa tenha um estigma de que só os membros da família possuem o direito de propor novidades ou fazer parte do processo criativo. 

A construção de um ambiente justo e meritocrático 

Contratados, engajados e desafiados a produzir mais, é hora de garantir a retenção de talentos. Nesse sentido, é importante para os funcionários perceberem que o ambiente é justo e meritocrático. 

O desejo de ter algo com valor — um trabalho bem remunerado com um bom título, por exemplo — é o impulso para lutar e conseguir este algo. O desejo de continuar em uma empresa é o desejo de ser reconhecido como merecedor do trabalho. É fazer a pessoa acreditar que o trabalho não lhe será tirado ou inutilizado por conta de um capricho de uma pessoa da família.  Este ato pode deixar as pessoas com medo, ressentidas e desengajadas. 

No nível organizacional, esta é a importância fundamental de ter métricas e objetivos bem alinhados com a missão da empresa, já que isso garante que os processos sejam transparentes e justos para todos. A ideia que todos são julgados por seu desempenho, e não pelo seu sobrenome, é essencial para a profissionalização de uma empresa familiar. 

Os gestores devem criar um ambiente psicologicamente seguro e justo, que incentive  os membros da equipe a falar, ouvindo o que as pessoas têm a dizer. Isso é importante em qualquer organização, especialmente em ambientes em que é fácil para funcionários pensarem que estão ficando para trás. Essa transparência na gestão garante o alinhamento necessário. 

Criar um ambiente psicologicamente seguro não significa comprometer o desempenho, engessando as estruturas. Significa reconhecer que erros são inevitáveis e saudáveis, especialmente em tempos de aprendizado. O sucesso consiste em cometer erros e aprender com eles. 

É necessário, porém, que se faça uma clara distinção entre erros e má conduta. Desvios éticos não podem ser tolerados, principalmente de membros da família, com o risco de alienar todas as pessoas justamente pelo sentimento de injustiça. A família é a guardiã da empresa e não o contrário. 

Se alguns recursos precisam ser cortados ou pessoas demitidas, seja claro sobre o motivo. Deixe os funcionários saberem que é aceitável ficarem frustrados em situações deste tipo, são emoções totalmente válidas. Explique todas as motivações e dê tempo para refletirem. No fim do dia, o importante é que entendam que as decisões são tomadas de maneira racional e embasadas em dados e informações. 

Profissionalizar uma empresa familiar, mudando e transformando a cultura, significa em primeiro lugar retirar privilégios e garantir um senso de justiça para que as pessoas sintam-se valorizadas dentro dela. Significa que a empresa vai buscar sua missão e seus objetivos em primeiro lugar, sem procurar agradar herdeiros. É ter um norte e pessoas independentes que estejam alinhadas a ele. 

As vantagens são inúmeras. Profissionalizar diminui as chances de que a empresa caia em armadilhas, aumenta o desempenho garantindo que as pessoas tenham a liberdade para empreender dentro da empresa e operem no máximo de seu potencial. Profissionalizar garante que a organização opere em alto nível e concorra com o que há de melhor no mercado. 


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