O dólar opera em queda nesta terça-feira, sendo negociado a R$ 4,97, depois de fechar o pregão abaixo de R$ 5 na segunda-feira, a menor cotação em mais de dois anos. A desvalorização está diretamente relacionada ao fato de o Brasil ter o que se chama de commodity currency, ou seja, uma moeda fortemente atrelada ao desempenho das commodities. Isso significa que, quando os preços das commodities sobem — como ocorre agora fortemente com o petróleo —, aumenta a receita brasileira com o comércio exterior, entram mais dólares no país e a moeda americana perde valor frente ao real. O efeito inicial é desinflacionário. No entanto, caso o petróleo permaneça no patamar elevado para o qual foi empurrado pela guerra no Oriente Médio, esse impacto inicial tende a se dissipar, aumentando a pressão inflacionária no Brasil e no mundo, ressalta Lívio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador associado do FGV Ibre.
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O Brasil está bem marcado nessa janela como uma commodity currency. Se o preço (das commodities) ficar alto daqui para frente , isso deve dar sustentação para a moeda. No entanto, se petróleo e combustíveis permanecem com valores elevados, começam a surgir efeitos secundários negativos, entre eles o aumento da inflação. Isso muda o equilíbrio. No curtíssimo prazo, o efeito das commodities está forçando a apreciação do câmbio.
O patamar do petróleo mudou desde o início dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã. O barril, que era negociado próximo de US$ 60 antes do conflito, agora gira em torno de US$ 100 — variando para cima ou para baixo conforme declarações do presidente americano Donald Trump e as perspectivas de prolongamento ou fim da guerra.
Na segunda-feira, o petróleo chegou a subir cerca de 7% após Trump anunciar o fechamento do Estreito de Ormuz pela Marinha americana. Nesta manhã, recuava aproximadamente 4% diante de novo anúncio do presidente, informando a retomada das negociações com o Irã. Reportagem do Financial Times informa que os últimos navios que deixaram o Estreito antes da guerra estão chegando agora aos destinos, tornando este um momento-chave para observar a continuidade do suprimento global.
O estreito foi inicialmente fechado pelo Irã em resposta aos ataques americanos e israelenses. Posteriormente, os Estados Unidos anunciaram o bloqueio desse bloqueio, como se o efeito fosse a retomada do tráfego marítimo. A abertura plena de Ormuz é considerada essencial para a normalização dos fluxos de comércio de petróleo. Mas até aqui todas as medidas tomadas por Trump vão no sentido de prolongar o conflito e com isso o fluxo de petróleo, lembrando que na região controlada por Irã passa um quinto da produção mundial de petróleo e gás.
Roberto Padovani, economista-chefe do BV, destaca que, mesmo que a guerra no Golfo Pérsico se encerre, há consenso no mercado de que os preços mudaram de patamar e que será necessário tempo para normalizar produção, distribuição, estoques e reservas estratégicas. O resultado dessa nova trajetória do petróleo, explica, é maior pressão inflacionária global. Isso frustra a expectativa de afrouxamento monetário no Brasil e no mundo, o que explica a revisão da projeção de crescimento global pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), de 3,3% para 3,1%, divulgada hoje.
Especialmente na Europa e nos Estados Unidos havia expectativa de corte de juros. Agora a leitura é de juros mais elevados e piores condições de crédito, o que tende a reduzir o crescimento. Os motores seguem sendo investimento em tecnologia e gasto público, mas em ritmo menor.
Para Padovani, o Fundo foi otimista ao elevar a previsão para o PIB brasileiro de 1,6% para 1,9%. Sua visão para a economia brasileira, diz, é mais cautelosa:
No Brasil, achei a projeção otimista, pois também sofreremos com juros mais altos por mais tempo. A deterioração do crédito sugere um PIB mais próximo de 1,5%, embora o FMI tenha revisado para perto de 1,9%. A grande dificuldade é medir o impacto dos gastos públicos neste ano. O relatório aponta corretamente que parte da resiliência vem do fato de sermos produtores de petróleo. O crescimento deve se manter; a questão é o ritmo, e sigo um pouco mais cauteloso por conta da piora nas condições de crédito.
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