Por Thiago Fagotti
O Transporte Rodoviário de Cargas (TRC) é a base da logística brasileira e move boa parte da economia do país. Entretanto, ainda é difícil responder quantos motoristas de caminhão o Brasil realmente tem e quantos deles ainda têm carteira assinada.
O levantamento de dados do transporte rodoviário no Brasil exige a análise combinada de diferentes fontes de informação para compor um panorama realista sobre a força de trabalho. Nenhuma base isolada contabiliza o número exato de condutores em atividade, uma vez que medem dimensões jurídicas e administrativas distintas.
Portanto, a avaliação conjunta das bases do Registro Nacional de Carteiras de Habilitação (RENACH), da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica da Receita Federal (RF CNPJ) expõe um cenário de inflexão.
O mercado de trabalho no setor passa por um processo de reorganização profunda, caracterizado pela estagnação dos postos de trabalho formais e pela migração maciça da expansão operacional para modelos de contratação autônoma.
Mais do que indicar uma possível escassez de motoristas no futuro, os dados mostram que o modelo de inserção profissional no TRC está sendo redesenhado.
A estrutura da oferta e o esvaziamento da base jovem
O estoque de condutores habilitados nas categorias C, D e E encerrou 2025 com mais de 11 milhões de registros. Após anos de declínio, os dados registraram alta de 1,20% a partir de 2022.
Contudo, esse movimento não reflete a entrada de novos profissionais. A alteração nos prazos de renovação da CNH para até dez anos desacelerou as baixas administrativas, inflando o estoque registrado nos sistemas, sem necessariamente refletir um aumento real do número de profissionais em atividade.
Do total, 62,3% (7,28 milhões) possuem a categoria D. Apesar de estarem aptos a dirigir veículos pesados, esses motoristas se direcionam prioritariamente ao transporte de passageiros, constituindo uma reserva potencial. O núcleo focado no transporte de cargas (categorias C e E) soma 4,4 milhões de habilitações.
A distribuição etária evidencia uma severa rigidez na renovação da força de trabalho. Em 2025, mais de 50% dos habilitados nas categorias C, D e E tinham 51 anos ou mais, enquanto a faixa de até 30 anos representou apenas 5,7%. O grupo de 18 a 21 anos somou irrisórios 0,14%.
Desaceleração do emprego CLT e perda de poder de compra
No trabalho formal, os dados da RAIS apontam desaceleração aguda. Em 2025, o TRC registrou 1,36 milhão de vínculos ativos, dos quais 541.588 correspondiam a motoristas de caminhão. Embora o saldo pela CLT tenha permanecido positivo em 6.536 postos, a taxa de expansão despencou de 4,10% em 2024 para 1,22% em 2025.
A análise pelo tempo de permanência revela o envelhecimento da base formal. As faixas de até 12 meses de carteira assinada perderam cerca de 12.800 vínculos, enquanto as faixas superiores a um ano tiveram acréscimo, demonstrando baixa atratividade para novos ingressantes.
O avanço da autonomia formalizada e os desafios de gestão
A principal transformação no modelo de trabalho no TRC se concentra na expansão do modelo autônomo formalizado. A base de cadastros ativos do MEI Caminhoneiro na Receita Federal alcançou 433.192 registros em 2025.
Somente naquele ano, foram abertos 143.014 novos CNPJs na categoria, gerando saldo líquido positivo de mais de 86.634 empresas ativas — alta de 25,00% sobre o ano anterior.
A comparação direta dos saldos de 2025 demonstra a disparidade entre as modalidades. Enquanto o emprego formal sob regime CLT expandiu 6.536 vínculos, a adesão ao MEI Caminhoneiro adicionou 86.634 cadastros ao mercado. Dessa forma, a expansão do setor fora da CLT ocorreu em uma proporção superior a 13 para 1.
Geograficamente, a maior concentração de registros de MEI permanece na Região Sudeste (58,4%), porém as taxas de crescimento relativo mais elevadas em 2025 ocorreram nas regiões Norte (+43,36%) e Nordeste (+32,84%). Essa mesma dinâmica de aceleração nas fronteiras logísticas foi verificada no emprego CLT.
Apesar do forte crescimento, o microempreendedorismo apresenta desafios de sustentabilidade operacional. Mais de 20% das empresas abertas como MEI Caminhoneiro em 2024 foram encerradas antes de completarem o segundo ano de atividade.
Afinal, até que ponto a expansão do MEI representa uma escolha pelo empreendedorismo ou em que medida ela reflete novas formas de organização das relações de trabalho? Os números sozinhos não respondem, mas evidenciam que o desafio do TRC é quantitativo e estrutural.
A base de habilitados envelhece e já não se traduz em oferta efetiva de motoristas; o emprego formal perde fôlego; e a expansão da atividade migra de forma acelerada para o MEI Caminhoneiro. Isolados, esses movimentos admitiriam interpretações distintas, mas em conjunto mostram que o modelo de inserção profissional no TRC está sendo redesenhado agora.
Tornar a atividade sustentável para quem já está nela deve ser a principal cobrança por políticas públicas adequadas, para as empresas e entidades do setor — algo mais difícil do que atrair novos motoristas.
Fonte: Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC)
Thiago Fagotti é analista de dados do IPTC.
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