Por Aline Maciel
Maior absenteísmo, alta rotatividade, dificuldade para reter talentos e conflitos internos. Estes sinais podem ser atribuídos a um denominador comum: a falta de um bom clima organizacional
No ano passado, o engajamento global dos funcionários diminuiu pelo segundo ano consecutivo, atingindo seu nível mais baixo desde 2020.
Isso custou à economia mundial aproximadamente 10 trilhões de dólares em perda de produtividade, de acordo com informações do relatório ‘Estado do Ambiente de Trabalho Global’ divulgado este ano pela consultoria Gallup.
Para o psicólogo organizacional Micael Vital, esse cenário reflete uma mudança na forma como as pessoas enxergam o trabalho. Desde a pandemia de Covid-19, os profissionais passaram a questionar com mais frequência o impacto que suas atividades exercem sobre a própria saúde, a vida familiar e o bem-estar.
“O trabalho está cada vez mais conectado ao propósito. As pessoas querem entender qual é o sentido do que fazem e esperam que a empresa consiga responder, ao menos em parte, essa pergunta. Já não vale mais dizer que tem que fazer isso, porque sempre foi assim”, afirma o psicólogo.
É justamente nesse ponto que o clima organizacional ganha protagonismo. À medida que os profissionais buscam mais significado em suas atividades, também se tornam menos tolerantes a práticas antes consideradas normais, como falta de diálogo e ausência de propósito.
Diagnóstico antes da solução
Embora muitas organizações já estejam adaptando sua cultura a essa nova realidade, outras ainda enfrentam dificuldades para construir um ambiente saudável.
Vital conta que o primeiro passo para a melhora do clima organizacional é entender o que está provocando a insatisfação dos colaboradores e a ferramenta mais eficiente para isso continua sendo a pesquisa.
“Essa insatisfação pode ser por conta da remuneração, dos benefícios, da desorganização das demandas ou outro aspecto. Cada problema exigirá uma solução diferente”, indica ele.
Com esse diagnóstico em mãos, a empresa pode elaborar um plano de ação consistente para melhorar o ambiente de trabalho e aumentar o sentimento de pertencimento.
Cultura organizacional e liderança caminham juntas
Segundo ele, nem sempre será possível atender a todas as expectativas dos profissionais, mas é fundamental buscar um equilíbrio que permita um ambiente saudável para todos.
Na avaliação do especialista, clima organizacional e cultura empresarial estão diretamente relacionados.
Ele cita como exemplo empresas que reclamam da pouca interação entre os colaboradores, mas desencorajam qualquer conversa entre colegas durante o expediente ou estimulam uma competitividade excessiva entre as equipes.
Nesse processo, a liderança exerce papel decisivo. Além de orientar e acompanhar o desempenho das equipes, os gestores representam a principal referência sobre os valores praticados pela organização.
“O líder orienta, direciona e dá sustentação ao time. Dependendo da forma como conduz a equipe, o impacto sobre o ambiente de trabalho pode ser extremamente positivo ou negativo”, comenta.
Um olhar atento para a realidade do transporte
No setor de transporte rodoviário de cargas, alguns fatores que comprometem o bem-estar dos profissionais fogem ao controle das empresas, como o trânsito intenso, congestionamentos e a espera para carregar ou descarregar.
Ainda assim, Micael afirma que é possível reduzir significativamente os impactos desses fatores com a demonstração de interesse genuíno pelo colaborador, criando espaços para escuta e diálogo.
“Perguntas simples sobre como foi a semana, como está a rotina de trabalho ou quais dificuldades o profissional enfrenta fazem diferença. Quando a pessoa percebe que está sendo ouvida, seu sentimento de pertencimento aumenta”, conta.
Ele explica que na psicanálise, há a compreensão de que o ser humano se constrói, em grande parte, a partir do olhar do outro. Assim, quando uma pessoa se sente vista e recebe atenção, ela tende a engajar muito mais.
“As transportadoras sozinhas não podem mudar o trânsito, mas podem fazer com que seus motoristas saibam que elas reconhecem os desafios e estão dispostas a oferecer apoio”, diz Vital. Ele compara essa situação aos riscos psicossociais presentes em diversas atividades profissionais.
“Nem sempre é possível eliminar esses riscos, mas é possível proteger as pessoas dos seus efeitos. No transporte, talvez não seja possível acabar com o estresse provocado pela atividade, porém a empresa pode fortalecer emocionalmente sua equipe para sofrer menos com essa realidade”, conclui.
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