O que os números revelam sobre as mulheres no mercado de trabalho
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Por Aline Maciel

Cruzamento de dados da PNAD Contínua e do Relatório de Transparência Salarial traça um retrato da participação feminina no mercado de trabalho brasileiro

No Brasil, a participação feminina no mercado de trabalho continua inferior à masculina, reflexo de fatores históricos e socioculturais que ainda influenciam as relações profissionais.

O cruzamento de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM) e dos Relatórios de Transparência Salarial permite dimensionar esse cenário.

“Apesar de as mulheres terem, em média, uma escolaridade maior, ainda existe uma questão importante: elas estão inseridas formalmente no mercado de trabalho há muito menos tempo que os homens”, explica Camila Florencio, coordenadora do Vez & Voz.

A entrada das mulheres nos ambientes produtivos é um processo relativamente recente, que ganhou força principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial. O cenário atual, portanto, ainda carrega marcas de uma trajetória histórica de desigualdade.

Diferença que aparece no contracheque

Uma das iniciativas para enfrentar essa desigualdade é a Lei nº 14.611, sancionada em julho de 2023, que estabelece a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens.

A legislação determina a publicação semestral de relatórios de transparência salarial e de critérios remuneratórios por estabelecimentos com 100 ou mais empregados, incluindo as transportadoras.

Publicado em novembro do ano passado, o 4º Relatório de Transparência Salarial que compilou os dados referentes ao primeiro semestre de 2025, mostra que as mulheres recebem, em média, 78,8% da remuneração dos homens, uma diferença de 21,2%. Em valores absolutos, a remuneração média feminina foi de R$ 3.905, enquanto a masculina chegou a R$ 4.953.

Os próprios estabelecimentos apontaram alguns dos fatores associados à diferença salarial. O tempo de experiência na empresa foi mencionado por 78,7%; as metas de produção, por 64,9%; e os planos de cargos, salários ou carreira, por 56,4%.

Para Florencio, as metas de produção podem ser uma justificativa compreensível quando a remuneração está efetivamente vinculada à produtividade. Já outros fatores exigem uma análise mais cuidadosa.

A estrutura de cargos e salários, por exemplo, pode ser afetada por uma questão que ultrapassa o ambiente profissional: a responsabilidade pelo cuidado com os filhos.

“Enquanto uma mulher com um filho de seis meses, se tiver uma promoção em que ela precise viajar, facilmente ela não vai aceitar. Se o homem tiver na mesma situação, ele aceitaria”, exemplifica a coordenadora.

A situação evidencia como a maternidade e as responsabilidades familiares ainda interferem de maneira desproporcional na disponibilidade das mulheres para o trabalho. Na primeira infância, essa diferença se torna especialmente evidente.

Segundo pesquisa da ONU Mulheres mencionada por Florencio, as mulheres dedicam 21,4 horas por semana ao trabalho doméstico e aos cuidados não remunerados, enquanto os homens dedicam 11 horas.

Essa diferença pode ter efeitos diretos sobre a trajetória profissional feminina. Mais responsabilidades fora do trabalho significam, muitas vezes, menos disponibilidade para novas oportunidades.

O desafio da experiência

Outro argumento apontado pelas empresas para explicar a diferença salarial é o tempo de experiência. No setor de transporte, essa questão ganha contornos particulares, principalmente nas funções operacionais, historicamente ocupadas por homens. “A gente sofre muito com isso, principalmente para a função de motorista”, afirma Florencio.

O problema é circular: se determinada função sempre foi predominantemente masculina, as mulheres têm menos oportunidades de adquirir experiência. Sem experiência, por sua vez, encontram mais dificuldade para atender aos requisitos das vagas.

“Se as empresa não flexibilizam o tempo de experiência, a gente não consegue ter mais mulheres no setor”, resume a coordenadora. Por isso, ela defende que as empresas que acreditam na equidade de gênero adotem programas voltados ao desenvolvimento de competências e deixem mais claras suas intenções de ampliar a presença feminina.

Um cenário que começa a mudar

Apesar dos desafios, as pesquisas também apontam avanços. O mercado de trabalho brasileiro vem registrando sucessivas quedas na taxa de desocupação e redução da proporção de domicílios em situação de insegurança alimentar entre 2023 e 2024.

Para Florencio, as pautas relacionadas à equidade de gênero ainda são relativamente recentes, mas o movimento de transformação está em curso. “Acho que logo mais conseguiremos, sim, ter equidade. Esse desequilíbrio ao longo do tempo tende a diminuir, em função das ações individuais das empresas, da movimentação das mulheres e do acompanhamento mais próximo do governo.”

Os números mostram que ainda há um longo caminho pela frente. Mas também indicam que tornar as desigualdades visíveis é um passo importante para enfrentá-las.


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