Por Raquel Serini
Entenda como funciona o Programa e quais aspectos sua transportadora deve avaliar antes de investir na renovação da frota
O Programa Move Brasil deixou de ser apenas uma proposta de incentivo para se tornar uma das principais iniciativas de renovação da frota brasileira em 2026. Em apenas 12 dias após a abertura das operações, o BNDES informou que já havia aprovado R$ 10 bilhões em financiamentos, o equivalente a aproximadamente 47% de toda a dotação orçamentária prevista para a linha, demonstrando que existe uma demanda reprimida por crédito no setor.
Ao mesmo tempo em que desperta o interesse de transportadoras e transportadores autônomos, o Move Brasil também levanta dúvidas. Afinal, como ele funciona na prática? Quem pode acessar? Vale a pena substituir um caminhão antigo por um novo financiado? E, principalmente, como saber se essa decisão faz sentido para a realidade da empresa?
Antes de responder a essas perguntas, é importante desmistificar um ponto que ainda gera confusão. O crédito não é contratado diretamente com o Governo Federal nem com o BNDES.
O Programa Move Brasil utiliza recursos do BNDES, mas as operações são realizadas por bancos comerciais credenciados, responsáveis por analisar a documentação, estruturar o financiamento e formalizar a contratação.
E esse talvez seja o ponto mais importante de toda a discussão. Muitas decisões de renovação de frota começam pela taxa de juros. No entanto, deveriam começar pelo custo da operação. Antes de perguntar “quanto custa financiar um caminhão novo?”, o empresário deveria perguntar:“quanto está custando manter o meu caminhão atual?”
Um veículo mais antigo costuma apresentar aumento nas despesas de manutenção, maior consumo de combustível, mais tempo parado para reparos e menor disponibilidade operacional. São custos que nem sempre aparecem imediatamente no fluxo de caixa, mas reduzem a rentabilidade da operação mês após mês.
Imagine uma transportadora cujo caminhão apresente um custo operacional mensal de aproximadamente R$ 35 mil. Desse valor, cerca de R$ 8 mil estão relacionados ao aumento de manutenção, consumo de combustível e perda de produtividade causada pelo desgaste do veículo.
Agora imagine que esse caminhão seja substituído por um novo, financiado pelo Programa Move Brasil, gerando uma parcela mensal de R$ 12 mil. À primeira vista, a impressão é de aumento de custo. Entretanto, se a renovação reduzir em R$ 5 mil as despesas de manutenção e combustível e ainda aumentar a disponibilidade do veículo para realizar mais viagens, o custo total da operação poderá ser menor do que o atual.
Essa é a principal mudança de perspectiva que o programa propõe: a decisão não deve ser baseada apenas na parcela do financiamento, mas no custo total da operação ao longo do tempo.
Outro aspecto que merece atenção é o próprio modelo de negócio da empresa.
Nos últimos anos, o transporte rodoviário de cargas passou a operar cada vez mais com modelos híbridos, combinando frota própria, agregados e transportadores autônomos. Em muitas situações, ampliar a terceirização pode ser mais vantajoso do que adquirir novos veículos. Em outras, principalmente nas operações dedicadas, de alta utilização ou que exigem maior controle operacional, investir em frota própria pode representar ganhos significativos de produtividade e confiabilidade.
A decisão continua sendo estratégica e deve considerar o perfil da operação, a previsibilidade da demanda, a capacidade de utilização dos veículos e os objetivos da empresa para os próximos anos.
No entanto, crédito mais barato, por si só, não garante uma boa decisão. A verdadeira vantagem da renovação da frota está na capacidade de reduzir custos operacionais, aumentar a disponibilidade dos veículos, melhorar a qualidade do serviço prestado e fortalecer a competitividade da transportadora.
Mais do que incentivar a contratação de uma linha de crédito, o Programa Move Brasil cria uma oportunidade para que empresários revisem sua estratégia de investimento e avaliem, com números, se a renovação da frota contribuirá para gerar mais eficiência e melhores resultados.
No IPTC, acreditamos que crédito é um instrumento de crescimento, mas somente quando acompanhado de planejamento. Afinal, o melhor investimento não é necessariamente aquele que oferece a menor taxa de juros, e sim aquele que gera o maior retorno para a operação.
Checklist: antes de investir na renovação da frota, avalie:
☐ Custo operacional da frota atual
☐ Gastos com manutenção e combustível
☐ Tempo de parada dos veículos
☐ Impacto da parcela no fluxo de caixa
☐ Nível de utilização da frota
☐ Frota própria × terceirização
☐ Ganhos esperados de produtividade
☐ Retorno econômico do investimento (ROI)
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