Uma análise de mercado e do TRC
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Por Lauro Valdivia*

A pandemia causada pelo coronavírus desencadeou uma das maiores crises sociais e econômicas do mundo. Seja pela surpresa com que apareceu, pela velocidade com que se espalhou pelo mundo ou por sua extensa duração.

Segundo os números apresentados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), apenas a China teve crescimento em 2020, de 2,3%, e apesar de positivo é o mais baixo desde 1976. As projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional) para 2021 são de crescimento de 3,6% para o Brasil, 4,2% para os países da Zona do Euro, 5,1% para os EUA e 8,1% para a China.

Em geral, a situação do Brasil não é diferente dos demais países do mundo. Houve uma retração do seu PIB em 2020 de 4,1%, mas comparados com outros países da América do Sul observa-se um índice um pouco menor.

A retomada está acontecendo, mas pode ser um pouco mais lenta que o necessário, e principalmente, que o desejado. No entanto, as previsões feitas pelas instituições financeiras consultadas pelo Banco Central projetam um crescimento para a economia brasileira em 2021 de 3,29%. Contudo, esse resultado depende da premissa de que as consequências nefastas causadas pela pandemia terminarão no primeiro semestre de 2021.

O TRC

Traduzindo-se para o setor de transporte os números da economia para 2021, pode-se esperar que o TRC tenha um crescimento da ordem de 7 a 10% (de duas a três vezes o PIB).

De acordo com a pesquisa da NTC&Logística, o ano de 2020 não terminou tão ruim quanto se previa no início. Pode-se dar o crédito: a recuperação, até que surpreendente, do mercado após o mês de maio, e ao esforço e trabalho das empresas do setor que se adaptaram, o mais rápido possível, à nova realidade.

Entretanto, paira ainda no horizonte como se dará a evolução da pandemia em 2021, e quanto tempo demorará para colhermos os resultados da vacinação.

A importância do Frete e sua evolução

É sempre bom lembrar que o frete, juntamente com a quantidade de carga transportada, é o instrumento que as empresas de transporte têm para geração da sua receita. Receita esta que, necessariamente, tem que ser suficiente para cobrir todos os custos do negócio e ainda, permitir que se tenha uma sobra ou lucro para que a empresa possa fazer os investimentos necessários.

Não podemos nos esquecer de que passamos por um período difícil, e muitos transportadores não conseguiram reajustar seus fretes. O repasse desse incremento de custo, com a devida recomposição do frete, é de total interesse do transportador, mas também do contratante que deseja manter a regularidade, a qualidade do serviço e a segurança nas suas operações.

Comportamento dos Custos do Transporte Rodoviário de Carga (TRC)

O INCT – Índice Nacional de Custos de Transporte de Carga fechou o ano com uma inflação para o setor bem acima da oficial (IPCA de 4,44%), a sua variação foi de 9,43% no segmento de cargas fracionadas e 7,15% no de cargas fechadas, para distância média (800 km).

Os principais insumos desta atividade chegam a representar 90% dos custos operacionais, são eles: mão de obra, veículo e combustível, além de impostos e das despesas administrativas.

Reajuste da Mão de Obra

O reajuste dos salários dos motoristas e de outras categorias operacionais do setor não ocorreu em 2020 em grande parte do Brasil. Uma boa medida para estimar o que poderá ocorrer no dissídio deste ano é o valor do INPC dos últimos 12 meses, que aponta para 5,53% (base fevereiro), o maior dos últimos anos.

A Escalada do Diesel e dos demais Insumos

O óleo diesel teve, em 2020, uma considerável retração até maio do ano passado de -18,73%, com o valor médio mínimo a nível Brasil em torno de R$3,106 o preço do litro praticado na bomba (posto) segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo).

A escalada de preço iniciou em maio e parece não ter fim e, apesar de ter encerrado o ano com o valor do litro abaixo do valor de dezembro de 2019, em 2021 (até o dia 06 de março) ele já atingiu R$4,26 o litro, um aumento só neste ano de de 16,4% e de11,9% em relação a dezembro de 2019.

Projeções para o ano de 2021

Observa-se que o INCT (Índice Nacional de Preços ao Consumidor)finalizou o ano de 2020 acima dos outros índices de inflação, (com exceção ao IGPM — Índice Geral de Preços – Mercado), ele iniciou o ano na casa dos 8% a 9%, caiu bastante ao longo do ano e terminou 2020 próximo dos 10%. 

A inflação do transporte rodoviário de cargas em 2020, medida pelo INCT, foi influenciada, basicamente, pelo aumento do preço dos veículos e implementos, que tiveram seu ritmo bem acelerado em relação ao ano de 2019. O cenário que se apresenta para 2021 é para um INCT consideravelmente alto, sendo pressionado principalmente pelo preço do diesel e a mão de obra, os dois principais insumos do setor.

A expectativa para 2021 era para uma situação econômica melhor já para o final do primeiro semestre, mas a segunda onda de lockdown deve empurrar a melhora para o segundo semestre. Apesar da previsão para o PIB brasileiro ser boa, se confirmada, deve trazer dificuldades para as empresas do setor, pois como os números demonstram, a oferta de transporte diminuiu muito nos últimos anos e a capacidade de investimentos das empresas está baixa, o que deve limitar muito o poder de reação do setor para atender de forma eficiente a demanda do mercado.

É possível vislumbrar um futuro promissor, apesar da pandemia causada pela Covid-19. No entanto, o TRC deve enfrentar uma dificuldade maior na contratação de motoristas e terceiros e uma inflação alta. Por outro lado, espera-se uma elevação considerável no volume de carga a ser transportada, o que gera boas perspectivas para a recomposição do frete.

* Lauro Valdívia é Engenheiro de Transportes, mestre em Administração de Empresas e assessor técnico da Associação Nacional do Transporte de Cargas & Logística – NTC&Logística e outras empresas do setor.

 


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