O fim da escala 6×1 e o efeito dominó no TRC: mão de obra, produtividade e custo Brasil em rota de colisão
Compartilhe

* Por Gislaine Zorzin

Falar sobre o fim da escala 6×1 apenas como avanço social é confortável. Difícil é encarar a realidade operacional de um país que ainda produz pouco, investe pouco em tecnologia e depende quase exclusivamente do transporte rodoviário para funcionar. Não se trata de ser contra melhores condições de trabalho, muito pelo contrário.

Trata-se de responsabilidade econômica. O transporte rodoviário de cargas não é um setor periférico. Ele é a espinha dorsal do abastecimento nacional. Mais de 60% de tudo o que se consome no Brasil chega por caminhão. Qualquer mudança estrutural nesse setor não fica restrita às empresas de transporte, ela se espalha pela economia inteira.

E é exatamente por isso que o debate, do jeito que está sendo feito, preocupa e preocupa demais, já que o setor vem operando no limite há algum tempo. Hoje, falta motorista no Brasil. Falta motorista qualificado. Não é ausência de vagas, é escassez de profissionais preparados, disponíveis e, principalmente, dispostos a assumir uma profissão cada vez mais exigente. O perfil do motorista está envelhecendo, o custo de formação é alto, as exigências legais aumentaram — corretamente, do ponto de vista da segurança — mas sem que houvesse, na mesma proporção, políticas consistentes de qualificação, retenção e modernização das operações.

Esse é o ponto de partida real. Ignorar isso é discutir jornada em um cenário que não existe. Produtividade baixa não sustenta redução de jornada Aqui está o grande X da questão: o Brasil é pouco produtivo. Enquanto outros países reduzem jornada apoiados em tecnologia, automação e eficiência operacional, grande parte das operações no Brasil ainda depende de processos manuais, baixa digitalização e pouca integração de sistemas.

Os dados confirmam o que a operação mostra no dia a dia: a produtividade do trabalho no Brasil praticamente não cresceu no último ano. Trabalhamos muitas horas para produzir pouco. Reduzir jornada sem elevar produtividade não é avanço estrutural. É redução de capacidade, e um ponto extremamente relevante, que parece ter sido ignorado nas discussões sobre o tema. No transporte rodoviário, isso se traduz em menos viagens, menos entregas, mais ociosidade de frota e maior pressão sobre um sistema que já opera no limite. Porque a conta não fecha? Manter o mesmo nível de serviço com menos dias trabalhados exige mais pessoas. Só que essas pessoas não existem hoje no mercado.

Quando a contratação não acontece, surgem atrasos, quebra de contratos e redução da oferta de transporte. Quando acontece, vem acompanhada de aumento de folha, encargos, treinamento e rotatividade. Nenhuma dessas alternativas é neutra. O custo não fica na transportadora. Ele entra no frete. E o frete entra no preço do alimento, do medicamento, do combustível, do insumo industrial. Quem acha que essa conta não chega ao consumidor final simplesmente não entende como a cadeia logística funciona. Planilha não tem discurso. Ela só mostra o custo real da operação. E no final das contas, como de costume, os custos recaem sobre o consumidor final, aumentando os preços de, praticamente, tudo. O risco silencioso O maior risco não é apenas o encarecimento. É a perda de capacidade do sistema. Logística não tem estoque de tempo. Caminhão parado não entrega amanhã o que não entregou hoje. Quando a logística falha, a indústria para, o varejo sofre e o abastecimento se torna instável.

Em um país altamente dependente do modal rodoviário, mexer na escala de trabalho sem um plano robusto de transição, produtividade e qualificação é assumir um risco sistêmico. O debate precisa subir de nível O Brasil pode, e deve, discutir melhores modelos de jornada. Mas isso precisa ser feito com responsabilidade. Antes de reduzir jornada no transporte rodoviário, é indispensável:

  • investir em tecnologia e eficiência operacional
  • ampliar a qualificação e valorização da mão de obra
  • estruturar um plano de transição por atividades críticas
  • tratar produtividade com a mesma seriedade que se trata jornada
  • e principalmente, ter certeza de que o país de mão de obra disponível para assumir esse novo modelo.

Sem isso, o fim da escala 6×1 corre o risco de ser uma medida bem-intencionada com efeitos graves sobre a logística, a economia e o custo de vida da população. O problema não é a jornada. O problema é tentar mudá-la sem arrumar a casa. E quando a logística desorganiza, o Brasil inteiro sente.

Gislaine Zorzin é diretora administrativa e de novos negócios da Zorzin Logística.

 


voltar

SETCESP
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.