Como o conflito no Oriente Médio ameaça o transporte de cargas no Brasil
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Com combustível acima de R$ 7, transportadoras brasileiras sofrem com redução de margens, aumento de custos e necessidade de reajustes nos fretes

Alta do diesel, rumores de greve e mudanças na tabela do piso mínimo do frete. Esses foram alguns dos efeitos sentidos pelo transporte rodoviário de cargas no Brasil desde a escalada das tensões no Oriente Médio. O setor é afetado principalmente pela alta no preço do combustível, que leva as empresas a repassarem esses custos no frete.

Negociado a US$ 100,61 nesta quarta-feira (1°), o preço do petróleo Brent chegou a US$ 118 no dia 19 de março após ataques recíprocos entre Israel e Irã a campos energéticos e refinarias. Na mesma data, o diesel bateu a marca de R$ 7,01, de acordo com o IPC.MLog. Desde então, o combustível registra uma alta constante e fechou o mês de março negociado a R$ 7,34, com uma alta de 30,2% nos últimos 31 dias.

Na ocasião, o especialista em Supply Chain da Peers Consulting + Technology, Marcelo Ikaro, apontou que, para cada 10% de aumento no preço do combustível, o custo do frete rodoviário sobe entre 3,5% e 4,8%.

IMPACTO DA ALTA DO DIESEL NO TRANSPORTE
De acordo com o diretor-presidente da Tigerlog, Marco Antonio Oliveira Neves, o cenário atual é considerado “crítico”. “O preço do petróleo já ultrapassou a casa dos US$ 100 e não se sabe até que ponto isso vai chegar”, destacou o executivo em entrevista exclusiva para a MundoLogística.

Para ele, há uma expectativa de que o custo do diesel continue aumentando em função desse contexto. Neves explicou que, em termos práticos, o valor é superior à média que o Brasil registrava antes da crise, com algumas localidades tendo um aumento de mais de 30% no valor do combustível.

A tensão no setor também é reforçada pela limitação na oferta de combustível. O executivo comentou ainda sobre boatos de retenção do diesel pelas distribuidoras para gerar uma alta no valor.

Nesse cenário, foram anunciadas medidas para conter os impactos da situação no transporte brasileiro. Após a Petrobras anunciar uma alta de R$ 0,38 no preço do diesel A vendido às distribuidoras, o Governo Federal suspendeu a cobrança dos impostos do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins).

Além disso, informações apuradas pelo g1 revelaram que ao menos 20 estados brasileiros já sinalizaram apoio à proposta do Governo Federal que estabelece a subvenção para importadores de diesel. A proposta prevê a concessão de um subsídio de R$ 1,20 por litro até o fim de maio para os importadores de diesel. O proposto pelo Ministério da Fazenda planeja que o valor seja dividido igualmente entre União e estados.

PERIGOSO DESEQUILÍBRIO
Para o diretor de Operações Logísticas Charles Dias da Cunha, a alta do petróleo pressiona o diesel, mesmo com a Petrobras amortecendo parte do repasse. Dessa forma, o custo operacional sobe proporcionalmente a essas variações de preço, já que o combustível representa mais de 40% do custo das transportadoras.

De acordo com o executivo, ações do governo podem até ter um efeito de suavizar os aumentos no curto prazo, mas podem resultar na necessidade de ajustes futuros mais fortes. Isso porque, se a pressão sobre o preço do barril no mercado internacional permanecer, é arriscado para o Brasil tentar conter “artificialmente” os valores praticados pela Petrobras ou recorrer à isenção de impostos. Para ele, as medidas funcionam como alívio, não solução.

Na visão de Cunha, o problema das transportadoras não fica apenas no aumento do diesel. A volatilidade dos preços foi observada como ainda mais prejudicial, dificultando o planejamento, travando decisões operacionais e complicando negociações comerciais.

O executivo salientou que isso tem gerado para o setor um aumento da necessidade de mais capital de giro, pressão dos parceiros para reajustes quase que semanais e redução das nossas margens.

“As margens das transportadoras ficam comprimidas. O frete entra em pressão, mas não reage na mesma velocidade, pois a dinâmica junto aos clientes na negociação não acompanha a volatilidade dos preços”, explicou. Cunha alertou que há um “perigoso desequilíbrio no curto prazo.”

“No dia a dia lá na ponta da operação, o que temos percebido é a necessidade de revisão diária de custos por rota, aumento na prática de controle de consumo de combustível por veículo, desestímulo a viagens com baixa rentabilidade e evidentemente o foco em cargas com melhores margens”, ressaltou.

RESPOSTA DAS TRANSPORTADORAS
As empresas já têm reagido a essas circunstâncias, repassando parte dos custos para os clientes. De acordo com a CBN, as transportadoras de Minas Gerais já repassam uma alta de até 10% do valor do frete.

Essa mesma publicação destacou que entidades que representam as transportadoras em outros estados, como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, também já recomendam a elevação do custo do frete entre 8,5% e 10%.

Na avaliação do CEO da Patrus Transportes, Marcelo Patrus, o repasse é inevitável. “A única solução que resta ao transportador é repassar o custo, infelizmente. Ninguém gosta de aumento de custos, mas as transportadoras de carga fracionada estão muito impactadas com o aumento de 20 até 40% no preço do óleo o diesel nos últimos 30 dias”, explicou.

Diante desse cenário, o especialista também reforçou a importância da tabela de piso mínimo de frete, regulamentada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). “A tabela de frete mínimo tem que continuar com o gatilho acima de 5%. É justo que toda vez que o diesel subir mais que 5%, a tabela seja reajustada”, destacou.

O diretor de Operações Logísticas Charles Dias da Cunha ainda trouxe algumas sugestões para as transportadoras nesse momento. Ele destacou que as empresas devem prestar atenção na austeridade na gestão dos custos e no maior controle do consumo de combustível, além de evitar a famosa rodagem vazia e otimizar ao máximo as cargas.

Nesse sentido, ele ainda ressaltou a importância da tecnologia. “A utilização da tecnologia, mais do que nunca, se torna primordial, com telemetrias para aferição de consumo de combustível e roteirizações inteligentes com uso de Inteligência Artificial”, acrescentou.

Na visão de Cunha, o atual momento leva as empresas a não mais apenas reagir ao preço do diesel, mas operar bem em um ambiente de incerteza permanente. “Pois a única certeza que temos é que amanhã aparecerá outro desafio”, complementou.


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