Dólar abaixo de R$ 5 é possível, mas cenário segue incerto, dizem analistas
Compartilhe

Divisa recuou ao menor valor em quase dois anos após alívio global com cessar-fogo no Oriente Médio

O dólar retornou ao patamar dos R$ 5,10 nesta quarta-feira (8), na menor cotação em quase dois anos, impulsionado pelo alívio global com o acordo de cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã.

O movimento reacendeu o debate sobre a retomada da divisa ao patamar abaixo de R$ 5 – algo não visto desde março de 2024.

Especialistas ouvidos pelo CNN Money afirmam que a queda da moeda norte-americana é possível, mas o cenário ainda é incerto e o câmbio deve passar por volatilidade.

Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, aponta que a expectativa de recuo da moeda norte-americana para valores mais descontados é factível, sobretudo pelo histórico recente da moeda.

Em 2025, o dólar perdeu 11% ante o real. A tendência se manteve nos primeiros meses de 2026, com recuo de até 6% até o início do conflito no Oriente Médio, no fim de fevereiro.

Para o especialista, apesar da alta do dólar ante o real em março, na esteira da valorização da divisa em nível global, a variação não chegou ao nível de overshooting – movimento exagerado e desordenado acima do nível justificável.

“Apesar de todo o risco embutido no conflito, o real se comportou de forma saudável, alcançando patamares próximos a R$ 5,30 nos momentos mais agudos, porém se consolidando no intervalo entre R$ 5,20 e R$ 5,25”, diz.

Segundo ele, os fundamentos para a moeda brasileira que favoreceram o câmbio até o início do conflito no Oriente Médio permanecem: fluxo estrangeiro, diferencial de juros e realocação de capital para emergentes.

“Agora adicionamos um novo elemento: o preço do petróleo. Apesar da queda recente, é esperado que a commodity negocie com prêmio nos próximos meses e, sendo o Brasil um exportador relevante, isso impacta diretamente nossa balança comercial e a oferta de dólares na economia.”

Soma de combinações
A volta do dólar abaixo do patamar simbólico de R$ 5 depende de um alinhamento de conjunturas positivas nos cenários doméstico e global – gerando mais desafios ao câmbio.

Nessa linha, Patrícia Palomo, economista na Arau Consultoria, vê o recuo da moeda como possível, apesar de esse não ser o cenário base do momento.

Segundo ela, olhando para fora, seria preciso uma redução mais estrutural do risco geopolítico, que retire de forma duradoura o prêmio de risco embutido no petróleo e no dólar.

Do lado doméstico, o Brasil precisaria entregar um vetor de confiança mais robusto com uma combinação de disciplina fiscal crível, redução de incertezas institucionais e manutenção de um diferencial de juros ainda atrativo para fluxos.

O CIO da Gordon Capital, Marco Harbich, concorda com Palomo. Para ele, o dólar próximo de R$ 5 é algo momentâneo, sobretudo considerando os vetores de incertezas que se aproximam, como a disputa eleitoral.

“Estamos passando por um ano eleitoral, então eu acho que no curtíssimo prazo isso [dólar em R$ 5] pode acontecer. Mas se o Trump fala ‘o acordo foi violado’, pronto, o dólar volta a subir. Então, agora não vejo como algo permanente. Tudo vai depender dos próximos passos”, avalia

Harbich alerta que o recuo do dólar nesta quarta-feira está vinculado a três pontos: entrada na bolsa, venda de petróleo e diferencial de juros. O anúncio de Trump em fazer um cessar-fogo com Irã fez com que o fluxo intensificasse. No entanto, para ele, trata-se de um acordo que permanece frágil e pode ser rompido a qualquer momento.

De acordo com o economista Danilo Coelho, o cenário fiscal e as eleições presidenciais ainda são entraves para a queda expressiva do dólar.

“Nós ainda temos bastante desafios aqui pela frente com o fiscal. Ainda tem a eleição pela frente e uma volatilidade relevante para ser considerada no preço da moeda. É pouco provável que a gente tenha essa dinâmica de dólar abaixo de R$ 5 daqui para frente”, afirma.

Shahini, da Nomad, avalia, observando os preços atuais, que o mercado ainda não parece precificar de forma relevante o cenário eleitoral, o que torna difícil afirmar o quanto do risco político já está incorporado.

“Minha leitura é que isso deve ganhar mais força a partir do segundo semestre, quando o chamado “trade eleitoral” tende a se tornar mais presente nos preços.”


voltar

SETCESP
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.