A aceleração chegou? O que esperar do PIB do terceiro trimestre
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Hoje (03), o IBGE divulga o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, e a expectativa é de que o dado mostre uma continuidade da recuperação da economia brasileira protagonizada pelo consumo das famílias.

Por outro lado, a crise na Argentina, importante parceiro comercial do Brasil, e a tensão global ligada à desaceleração das principais economias do mundo devem ofuscar esse resultado, uma vez que afetam o desempenho das exportações.

“O terceiro trimestre foi um período de início de melhora das expectativas. De uma recuperação lenta, gradual e, o que é importante, sem grandes choques, como o que sofreu a indústria extrativa no primeiro trimestre por conta do rompimento de barragem em Brumadinho“, diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

A previsão da consultoria é que o PIB cresça 0,5% no terceiro trimestre sobre o trimestre anterior e 1,2% em relação ao mesmo período do ano passado.

A acalmada de ânimos, segundo o economista, tem muito a ver com a aprovação da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, que aconteceu em primeiro turno em julho e o segundo turno em agosto.

“A questão toda era sobre o que poderia acontecer na Câmara. A conclusão dessa fase trouxe maior tranquilidade de que o texto passaria no Senado, como acabou acontecendo”, diz.

Despesas previdenciárias representam mais da metade dos gastos do governo federal e a reforma do sistema de aposentadorias desacelera a escalada da dívida da União.

A partir daí, as expectativas em torno da inflação medida pelo IPCA tiveram uma queda acentuada. “Até o segundo trimestre, essas expectativas estavam subindo. A gente via inflação a 4% neste ano e, agora, a gente vê números próximos de 3%”, diz Vale.

O cenário de reforma bem encaminhada e expectativas sobre inflação em queda ajudou a abrir espaço para que o Banco Central baixasse os juros.

O atual ciclo de afrouxamento monetário começou em julho. Desde lá, já houve três quedas consecutivas de 0,5 ponto percentual na taxa básica da economia (Selic), que deve chegar a 4,5% ao ano em dezembro, segundo sinalização do BC e expectativas de mercado.

Os juros em queda favoreceram tanto a expansão do consumo das famílias — que tem um peso grande no PIB, de 70% — como os investimentos privados, com destaque para o setor de construção civil.

“A taxa de juros reduz o custo dos financiamentos, então fica mais barato para as pessoas pegarem dinheiro emprestado para comprar imóveis e também reduz o custo de oportunidade, então em vez de manter o dinheiro num fundo de renda fixa, o investidor tem mais incentivo a não deixar o dinheiro parado”, diz José Carlos Faria, economista-chefe do BNP Paribas. O banco espera que o PIB do terceiro trimestre avançe 0,4% ante o trimestre anterior. Na comparação anual, a elevação prevista fica em 1%.

A aprovação de novos saques do FGTS pelo governo, que começou a ser liberada em setembro, também deve ter algum impacto positivo no consumo das famílias, segundo Silvia Matos, coordenadora do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV), embora esse efeito seja mais sentido no PIB do quarto trimestre.

“Setembro deve ter dado alguma contribuição para o crescimento dessa demanda, mas não foi só isso. Houve uma melhora gradual do mercado de trabalho, da renda, juros menores, inflação menor. Tudo isso tem ajudado a criar um consumo mais forte, embora muito gradual. Mas o consumo já mostra esse protagonismo no resultado do PIB”, diz.

A expectativa do Ibre é que o consumo das famílias mostre avanço de 0,6% no terceiro trimestre ante o período imediatamente anterior. Esse número é o dobro daqueles registrados nos dois primeiros trimestres do ano, de 0,3% na mesma base.

Em relação ao PIB, o Ibre espera um avanço no terceiro trimestre de 0,4% na comparação trimestral e 0,9% na comparação anual.

A construção civil deve continuar crescendo, na esteira do mercado imobiliário, que mostra recuperação em algumas regiões, sobretudo no estado de São Paulo, que teve aceleração dos lançamentos imobiliários. “Mas ainda não vemos lançamentos em outros estados”, destaca Faria.

O setor de construção vinha mostrando resultados negativos desde a recessão e veio positivo no segundo trimestre, na comparação anual, pela primeira vez depois de 20 recuos consecutivos. O Ibre espera que o setor cresça perto de 2% no ano e tenha seu primeiro resultado positivo em cinco anos.

O PIB da construção encolheu 28% entre os anos de 2014 e 2018, tendo sido um dos mais atingidos pela crise. Vale ressaltar que o setor é um grande empregador, principalmente em fases nas quais as obras estão aquecidas.

Silva ressalta que o IBGE deve anunciar revisões dos resultados anteriores, o que é praxe e pode mudar um número ou outro da série, mas, no geral, “o histórico continua o mesmo”.

O fim do terceiro trimestre também marca uma reação dos principais indicadores da atividade econômica: indústria, comércio e serviços. O comércio varejista ampliado avançou 4,3% em setembro, na comparação anual. No mesmo mês, a indústria de transformação cresceu 1,6% nessa comparação, depois de cair por três meses seguidos.

Sobre as exportações brasileiras, Silvia Matos diz que a previsão é de que esse resultado venha “ruim”, como reflexo da tensão externa e da crise econômica da Argentina. “A crise na argentina tem influenciado o PIB brasileiro o ano todo. É um parceiro importante para as manufaturas brasileiras. O país teve um choque no ano passado e, de lá para cá, a situação só piora”, diz. 

Entre janeiro e outubro deste ano, o volume das exportações brasileiras mostra queda de 1,9% ante o mesmo período de 2018. Na mesma comparação, as importações cresceram 3,6%, segundo dados do Ibre.

“É bom lembrar que, apesar do terceiro trimestre mostrar que foi melhor do que o anterior, estamos falando de uma economia que não vai mostrar nenhuma recuperação espetacular. Ainda cresce cerca de 1% ao ano”, diz Vale.


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