Por Aline Maciel – Redação
Entre avanços e ajustes, Move Brasil estimula a modernização da frota. Quase metade dos recursos disponibilizados pelo Governo Federal para essa linha de financiamento já foram contratados
No início deste ano, o Governo Federal lançou o Move Brasil, programa de financiamento voltado a caminhoneiros autônomos, cooperativas e empresas de transporte rodoviário de cargas para a aquisição de veículos pesados produzidos no país e que atendam a critérios de sustentabilidade. A proposta oferece taxas de juros mais competitivas em relação às praticadas pelo mercado.
O programa disponibiliza recursos do Tesouro Nacional e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o qual é o gestor dessa linha de financiamento.
Os interessados devem protocolar a intenção de aquisição de veículos de carga até 30 de junho de 2026, conforme indica a Medida Provisória (MP) nº 1328, diretamente no BNDES ou em instituições financeiras credenciadas. Entretanto, informativo do próprio banco de desenvolvimento orienta que o prazo considerado seja 25 de maio, antecipando, na prática, a data-limite para o envio das propostas.
Segundo o assessor jurídico do SETCESP, Adauto Bentivegna Filho, é necessário que as empresas que desejam acessar os créditos do Move Brasil busquem informações o quanto antes. “É muito importante que as transportadoras procurem o banco onde são correntistas ou o próprio BNDES para conhecer os detalhes e avaliar as condições”, orienta.
Durante a celebração dos 90 anos do SETCESP, o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, destacou o caráter estratégico da iniciativa.
“A indústria fabricando mais e o comércio vendendo mais melhoram a eficiência da logística do país e a competitividade. Mais segurança e menos acidentes nas estradas e proteção ao meio ambiente. Sem dúvida, é uma agenda muito positiva”, afirmou.
De acordo com Alckmin, o governo trabalha na estruturação de um fundo permanente de renovação de frota, com participação da Petrobras e do BNDES, para garantir a equalização contínua das taxas de juros no financiamento de caminhões. “Batemos recorde de exportação no ano passado, e o produto precisa chegar ao porto e ao aeroporto. O transporte rodoviário é fundamental para fazer a ligação entre os elos da cadeia logística”, afirmou.
Até o fim de fevereiro, já haviam sido contratados R$ 4,2 bilhões dos R$ 10 bilhões disponibilizados. Dados do BNDES apontam que foram aprovadas 3.318 operações, destinadas à aquisição de mais de 5,8 mil equipamentos. O ticket médio é de R$ 1,1 milhão por contrato. A maior parte dos recursos foi destinada à aquisição de caminhões novos para frotistas, com R$ 3,6 bilhões, em 3.126 operações.
Para o presidente do Conselho Superior e de Administração do SETCESP, Marcelo Rodrigues, o programa se mostra atrativo principalmente pelas taxas oferecidas, praticamente metade das praticadas no crédito convencional.
Atualmente, a taxa básica de juros (Selic) no Brasil permanece em patamar elevado, pressionando todas as modalidades de crédito, incluindo financiamento de veículos pesados cujas taxas giram entre 22% e 24% ao ano. Já o Move Brasil opera com taxas entre 12% e 13,5%.
Apesar das condições mais favoráveis, Rodrigues avalia que ainda há espaço para aprimoramentos. Segundo ele, o programa poderia ter impacto mais significativo na renovação de frota se oferecesse incentivos adicionais para a substituição de veículos antigos por novos, como descontos vinculados à entrega de usados.
“O estímulo à renovação acontece naturalmente quando a economia está aquecida e o consumo cresce. Não há termômetro mais claro do que a circulação de cargas. Quando o consumo aumenta, a roda gira e o transportador investe”, observa.
Mercado já sente os efeitos
Fabricantes e concessionárias relatam aumento na procura. Marco Yan, head de vendas da Rodobens, informa que o programa permite prazos de até 60 meses, inclui veículos seminovos fabricados a partir de 2012 e prevê isenção total de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).
“Na prática, isso traz mais segurança e previsibilidade para pequenos e médios transportadores. Os créditos já liberados nos primeiros dois meses mostram o quanto as taxas são competitivas, impulsionando as vendas”, conta Yan.
O diretor de vendas da Iveco Cofipe, Marcelo Danielli, chama atenção para o fato de que a inclusão de veículos usados ampliou o alcance do programa, já que normalmente as taxas de CDC (Crédito Direto ao Consumidor) para este tipo de veículos são maiores do que para os zero-quilômetro. “Muitos clientes que não planejavam adquirir veículos neste início de ano anteciparam a decisão para aproveitar as condições do momento”, explica.
Vale lembrar que a MP determina que o uso dos recursos para compra de caminhões seminovos é permitido apenas para autônomos e pessoas físicas associadas a cooperativas do setor. Ou seja, empresas não podem usufruir dos créditos para essa modalidade.
“Já percebemos um aumento no interesse e na procura dos nossos clientes”, conta Luciano Pereira, gerente de vendas do Grupo De Nigris, confirmando que o programa vem contribuindo para o aumento das vendas. “Algumas negociações já evoluíram consistentemente e estão em fase avançada. Acreditamos em um impacto positivo gradual nas vendas”, acrescenta ele.
Indicando forte adesão nos primeiros meses e ainda com ampla margem para novas operações, o Move Brasil desponta como um instrumento para investimentos no transporte rodoviário de cargas e estímulo à renovação de frota. E, mesmo que existam pontos a serem aprimorados, como o incentivo à substituição de veículos antigos e a possibilidade de financiamento dos seminovos também para as empresas, o programa sinaliza um esforço para equilibrar custo financeiro e sustentabilidade no setor.
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