
O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, divulgou nesta quinta-feira (28) a sétima carta da presidência brasileira da conferência à comunidade internacional.
Desta vez, o foco foi o setor privado, apontado como força indispensável para acelerar a implementação do Acordo de Paris e transformar compromissos climáticos em ações.
ENTENDA: As cartas publicadas pelas presidências das COPs são instrumentos diplomáticos para mobilizar países, setor privado, sociedade civil e outros atores antes da conferência.
É nelas que os presidentes definem prioridades, sinalizam a agenda e buscam construir consensos entre os 198 países-membros da Convenção do Clima da ONU.
No documento, o embaixador defende que as empresas sejam protagonistas na transformação econômica que acompanha a crise climática e que estejam presentes, em peso, na conferência marcada para novembro em Belém, mesmo com a crise de hospedagem sem precedentes ofuscando o debate climático e impedindo a participação de diversas delegações.
Segundo o texto, a transição para uma economia de baixo carbono já não tem volta, e cabe ao setor privado deixar de lado compromissos tidos como “genéricos” para adotar planos consistentes de ação.
O documento afirma ainda que “a transição climática é irreversível” e que aqueles que anteciparem as mudanças radicais que estão por vir “prosperarão, construindo resiliência e aproveitando as oportunidades extraordinárias que a transição oferece”.
Ainda de acordo com o texto, a COP30 não pode se limitar ao palco das negociações diplomáticas ou à leitura de declarações: precisa se tornar um espaço de entrega concreta.
” O setor privado tem reagido às discussões sobre mudanças climáticas, mas acreditamos que o momento é de avançar. Já existem muitas regras e acordos em vigor, e por isso entendemos que é hora de passar para a etapa seguinte”, disse o embaixador em uma coletiva de imprensa com jornalistas sobre a nova carta.
A presidência brasileira sustenta que a conferência será o momento de transformar compromissos em resultados visíveis, aproximando políticas de investimentos e articulando inovação tecnológica com cooperação internacional.
Por isso, na coletiva Corrêa do Lago destacou que a conferência em Belém precisa ser lembrada como um marco de implementação, e não apenas como mais uma rodada de negociações.
Segundo ele, o Brasil tem buscado propor uma agenda concreta justamente para mostrar ao mundo que é possível avançar de forma prática.
O diplomata também reiterou que o processo não pode ficar restrito aos governos, reforçando o papel de estados e municípios, universidades, organizações da sociedade civil e até de indivíduos na construção de soluções climáticas.
Pressão por financiamento e riscos de retrocesso
Na coletiva que acompanhou a divulgação da carta, André Corrêa do Lago também reconheceu que o maior desafio de Belém será lidar com a falta de credibilidade em torno das promessas de financiamento que marca a agenda climática.
“Já existem quase 500 compromissos, mas ninguém lembra nem de 30”, afirmou, ao defender a criação de um sistema de monitoramento que dê mais transparência às promessas do setor privado.
Em 2009, países ricos prometeram mobilizar US$ 100 bilhões por ano até 2020 para apoiar ações climáticas em países em desenvolvimento.
A meta nunca foi cumprida integralmente e em 2023 o valor chegou a US$ 83,3 bilhões. Em resposta, a última cúpula do clima da Onu, a COP29, aprovou um novo alvo: US$ 300 bilhões anuais até 2035.
A medida foi apresentada como um avanço, mas recebeu duras críticas de redes da sociedade civil, como o Climate Action Network (CAN), que considerou a proposta “um insulto climático”.
O motivo: o valor segue distante do necessário para lidar com os impactos crescentes da crise ambiental, especialmente em países vulneráveis, que enfrentam enchentes, secas, insegurança alimentar e deslocamentos forçados.
Para tentar construir um novo pacto mais ambicioso, Brasil e Azerbaijão, que lideram conjuntamente o atual ciclo de negociações, lançaram o chamado “roteiro Baku–Belém“.
A proposta busca elevar o patamar do financiamento para US$ 1,3 trilhão anuais, combinando fontes públicas, privadas e mecanismos de garantias. A ideia é tornar os recursos mais acessíveis e previsíveis, com ênfase na adaptação e na reparação de perdas e danos.
O plano prevê o uso de garantias soberanas, títulos verdes, regulação mais flexível e criação de plataformas nacionais que canalizem os recursos diretamente para projetos locais. Também sugere novas formas de arrecadação, como taxação de carbono e redirecionamento de subsídios de indústrias poluentes.
Na coletiva sobre a nova carta, a presidente-executiva da conferência, Ana Toni, reforçou que a ideia é “revisar o pacto público-privado” em Belém e dar às empresas condições concretas para implementar projetos, mas ainda não há definição de quem fiscalizará os resultados.
“Algumas empresas, principalmente do setor financeiro nos Estados Unidos, chegaram a sofrer ações legais por compromissos assumidos e, para se defender, recuaram. Hoje falam menos, mas não vejo menos comprometimento em continuar financiando. A transição é inevitável e elas estão, sim, se preparando para estar na frente e usar o tema de mudança do clima como oportunidade”, disse.
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