Transporte rodoviário de cargas exige novo olhar e soluções
Compartilhe

O transporte rodoviário de cargas brasileiro vive uma travessia histórica. A indústria avança em tecnologia, o mercado muda de comportamento, os motoristas enfrentam novas exigências e a sociedade cobra eficiência, sustentabilidade e segurança. Em meio a essa revolução silenciosa, poucas vozes conseguem enxergar o panorama completo com tanta clareza quanto Roberto Leoncini, executivo que marcou sua trajetória em gigantes como Scania e Mercedes-Benz, sempre ligado à área de vendas, pós-vendas, serviços e relacionamento com o cliente.

Atualmente, Leoncini atua como conselheiro consultivo da Mercedes-Benz e do Grupo Águia Branca, além de mentor de executivos e sucessores de transportadoras. Seu olhar ajuda a compreender por que o setor mudou tanto nos últimos 20 anos e por que os próximos 10 serão decisivos.

Leoncini observa que o transporte brasileiro atravessa um período de redefinição de prioridades, depois de uma década marcada por altos e baixos nas vendas, juros elevados e mudanças tecnológicas profundas. Para ele, o mercado vive um novo grau de complexidade.

“O mercado de caminhões é cíclico, mas agora está diferente. Há uma combinação de fatores como envelhecimento da frota, crédito restrito, falta de motoristas e sucessão mal resolvida, que exigem uma nova forma de pensar o negócio”, afirma.

Ao mesmo tempo, reforça que o transporte segue sendo um setor vital e resiliente, mas que demanda atitudes mais coordenadas entre empresas, governo e indústria. “O transporte é o espelho da economia. Quando ele se move, o País anda. Mas, para continuar avançando, precisamos de governança, eficiência e coragem para enfrentar os problemas estruturais, opina.”

Leoncini resume de forma direta que o setor entrou numa era em que não basta ter caminhão é preciso ter gestão. O veículo deixou de ser o fim e passou a ser o meio. “O mercado ficou mais complexo. Antes a conversa era torque, preço. Hoje falamos de disponibilidade, custo operacional, telemetria, conectividade, ciclo de vida do produto. É outro patamar de exigência”, diz. Segundo ele, essa mudança não partiu apenas das montadoras, mas também da evolução dos transportadores e embarcadores, que se tornaram mais profissionais e orientados por dados.

A idade da frota surge como um dos maiores pontos de atenção nesse novo cenário. Muitos operadores estão esticando demais a vida útil dos veículos, o que afeta produtividade, segurança e imagem. Para Leoncini, falta uma política pública consistente de renovação e, mais do que isso, falta coordenação entre indústria, governo e transportadores para destravar o tema.

“O problema é mais profundo do que parece. Não se trata apenas de ampliar crédito, porque o caminhoneiro autônomo com um veículo de 25 anos, muitas vezes sem comprovação formal de renda ou garantias, não consegue acessar financiamento para um caminhão novo. É preciso criar um modelo estruturado de transição, que envolva programas de recompra, destinação de veículos ineficientes e oportunidades reais de reemprego para quem depende deles”, disse.

Transporte rodoviário de cargas: Brasil adia discussões importantes como renovação de frota 

Países como a Alemanha já avançaram nesse caminho, enquanto o Brasil segue adiando a discussão e tratando a renovação como um problema social, e não como uma política de produtividade. Leoncini acredita que a falta de fiscalização técnica e ambiental efetiva agrava o quadro. “Não há como falar em segurança ou eficiência com caminhões de três décadas circulando sem inspeção, gerando custos invisíveis em acidentes, poluição e perda de competitividade”.

Outro tema que ganha força na visão do executivo é o papel dos seminovos na dinâmica do transporte brasileiro. Ele destaca que o segmento deixou de ser apenas uma alternativa mais barata e se tornou uma peça fundamental na renovação da frota.

Os programas estruturados de recompra e certificação permitem que caminhões usados ganhem segunda vida com garantia, inspeção técnica e transparência algo essencial para quem não tem acesso ao veículo zero quilômetro. Leoncini reforça que, sem um mercado forte de seminovos, a renovação da frota fica travada, e o ciclo econômico do transporte perde eficiência. “O seminovo é o elo que permite o giro. Sem ele, o mercado para, disse”

Paralelamente, o papel do motorista passou por uma das transformações mais significativas do setor. Ele deixou de ser apenas o condutor para se tornar um operador técnico, capaz de interpretar dados, utilizar sistemas embarcados, trabalhar com telemetria e extrair o máximo da eficiência do veículo.

“Nenhum sistema entrega resultado sem gente qualificada. O motorista é parte central da eficiência da frota. Treinamento hoje não é diferencial é obrigação”, afirma Leoncini. O desafio, porém, é que esse aumento de exigência vem acompanhado de uma dificuldade crescente para atrair novos profissionais. A nova geração é mais conectada, tem outras referências e busca melhores condições de trabalho. Para Leoncini, o setor precisa recuperar o “glamour” da profissão para reduzir o déficit de motoristas, oferecendo perspectiva, segurança e qualidade de vida.

Mas o avanço tecnológico contrasta com uma realidade estrutural que continua atrasada. Leoncini reforça que o Brasil ainda discute produtividade sem resolver o básico. A infraestrutura não é adequada, as estradas oferecem riscos e faltam pontos de parada dignos e suficientes.

“Não existe eficiência se o motorista não consegue descansar. Não existe segurança se ele precisa improvisar um local para dormir. E não existe respeito à profissão quando falta um ambiente minimamente adequado para o trabalhador fazer seu percurso”, comenta. Para ele, essa discrepância entre tecnologia de ponta e infraestrutura deficiente cria uma barreira constante no dia a dia de quem vive da estrada.

Outro ponto importante é a evolução do relacionamento entre montadoras, clientes e concessionários, que migrou de uma lógica comercial para uma lógica de parceria. “Hoje falamos muito mais de solução do que de produto. O cliente compra um caminhão, mas o que ele quer mesmo é disponibilidade. Quer saber que o veículo não vai parar, que terá manutenção adequada, que existe suporte remoto, conectividade, diagnóstico antecipado. Isso muda a forma de trabalhar.” Com a conectividade, a manutenção tornou-se preditiva, a logística ficou mais planejada e os custos mais transparentes.

Leoncini também observa mudanças relevantes na mentalidade dos transportadores. A cultura do improviso vem dando lugar à gestão profissional, ao controle rigoroso de indicadores, à manutenção programada e à análise contínua de performance e consumo. “A competitividade aumentou. Quem não melhora fica para trás. O mercado não perdoa mais decisões mal planejadas”, destaca.

Olhando para o futuro, Leoncini acredita que não haverá uma solução única de energia. Diesel, biometano, elétrico e hidrogênio vão coexistir por muito tempo. “O Brasil é um país continental. O que funciona para uma rota não serve para outra. Não estamos diante de uma substituição; estamos diante de uma expansão de possibilidades.” Para ele, o desafio será equilibrar produtividade, sustentabilidade e responsabilidade social.

Por fim, Leoncini reforça que a evolução do transporte não depende apenas das montadoras. “Transportador, motorista, entidades de classe, governo, concessionárias, todo mundo tem um papel. A cadeia inteira precisa avançar.” Ele sintetiza sua visão com um pensamento direto, o transporte está mudando porque não há outra escolha.

O mundo mudou, o mercado mudou e as demandas são outras. “O futuro já começou. E o Brasil só vai avançar de verdade quando conseguir unir o que já tem de melhor com o que ainda precisa construir. Assim, entre desafios antigos e soluções cada vez mais modernas, a nova era do transporte segue em movimento, conectada, exigente e, acima de tudo, construída por pessoas que continuam carregando o país todos os dias, concluí.”


voltar

SETCESP
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.