Inventário da CNT orienta propostas para frotas, combustíveis, mobilidade, infraestrutura e melhor aproveitamento dos diferentes modos
Apresentado na COP30, o Inventário CNT de Emissões de Gases do Efeito Estufa do Setor de Transportes já mostrou o quanto o setor emite e onde estão concentradas essas emissões. Agora, no caminho para a COP31, o diagnóstico passa a orientar uma nova etapa, voltada à discussão dos caminhos para reduzir as emissões do transporte brasileiro. Os dados subsidiam propostas e debates sobre a redução de emissões, considerando as dimensões do país, a dependência das rodovias e as diferentes realidades operacionais.
O levantamento contabilizou 189,8 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente nas operações nacionais do transporte em 2023. A divisão das emissões por modo e categoria de veículo mostra onde elas estão concentradas e quais condições devem orientar a adoção de combustíveis, tecnologias e modelos de operação de menor intensidade de carbono.
O Inventário também dá continuidade ao trabalho desenvolvido pelo Sistema Transporte nas conferências climáticas. Desde a COP27, a entidade ampliou sua presença técnica e institucional e promoveu debates com representantes brasileiros e internacionais. Na COP30, essa atuação incluiu a apresentação do Inventário, uma base própria sobre as emissões do setor, outros trabalhos técnicos que subsidiam a tomada de decisão do setor transportador, além de apresentação de cases de empresas que já praticam a sustentabilidade ambiental.
Até a próxima Conferência, esse trabalho envolverá estudos, formulação de propostas e diálogo com empresas, governo, especialistas e organismos internacionais, além da preparação de conteúdos para traduzir as discussões climáticas para a realidade do transporte brasileiro.
“O Inventário nos permite discutir a implementação considerando as necessidades de cada modo e identificar onde estão as maiores possibilidades de redução de emissões. O desafio agora é criar condições de financiamento, infraestrutura e segurança regulatória para que as soluções possam ganhar escala”, afirma a diretora executiva da CNT, Fernanda Rezende.
Onde estão as emissões
O modo rodoviário respondeu por 92,89% das emissões contabilizadas, com aproximadamente 176,35 milhões de toneladas de CO2 equivalente. Essa participação está relacionada à configuração da matriz brasileira, na qual as rodovias respondem por cerca de 65% do transporte de cargas e por cerca de 95% do transporte de passageiros.
Os veículos leves — automóveis, motocicletas e comerciais leves — somaram 48,25% das emissões do setor. Considerados separadamente, os automóveis leves responderam por 30,33%, os comerciais leves por 14,81% e as motocicletas por 3,11%.
Os caminhões foram responsáveis por 34,03% do total. Ônibus e micro-ônibus corresponderam a outros 10,61%. Os números mostram que as medidas voltadas à descarbonização do modo rodoviário precisam considerar o transporte individual, visto que os veículos leves compõem a parcela mais significativa das emissões.
Nesse sentido, planejar a mobilidade urbana e incentivar o uso de veículos coletivos em detrimento dos veículos individuais são exemplos de ações que podem reduzir a emissão de carbono equivalente. No transporte de cargas, a renovação da frota por veículos com tecnologia mais recente reduziria mais de 80% das emissões, visto que mais da metade da frota circulante brasileira supera 15 anos.
A transição energética complementa esse cenário incorporando novas rotas tecnológicas, como o biometano, o diesel verde e o hidrogênio renovável, além da eletromobilidade. Porém, é importante que não haja priorização de uma única fonte energética para que o transportador possa escolher a melhor alternativa de acordo com sua operação e a região em que atua.
“Os dados também ajudam a evitar soluções genéricas. O transporte de passageiros, a movimentação de cargas e as operações de cada modo têm necessidades distintas. As medidas precisam considerar custos, disponibilidade tecnológica, infraestrutura e capacidade de investimento de cada empresa”, acrescenta Fernanda Rezende.
Possibilidades para cada modo
O transporte aeroviário respondeu por 4,89% das emissões, considerando os voos domésticos. O estudo aponta a oferta insuficiente de biocombustíveis como um dos principais desafios do setor, uma vez que as emissões estão concentradas no uso de querosene de aviação.
O modo ferroviário respondeu por 1,80% das emissões totais do setor de transporte. O modo ferroviário apresenta baixa emissão por tonelada-quilômetro útil e a ampliação da participação ferroviária na matriz nacional é importante pois contribui sobremaneira com a modernização das operações do transporte nacional e diminui diretamente a intensidade de carbono da logística brasileira.
O aquaviário correspondeu por apenas 0,41% das emissões contabilizadas, considerando a cabotagem marítima e navegação interior. O baixo consumo de energia por tonelada transportada indica um vantajoso espaço para ampliar o aproveitamento das hidrovias e da cabotagem no Brasil, desde que haja investimentos e condições operacionais adequadas.
O total de 189,8 milhões de toneladas considera somente as operações realizadas em território nacional. A aviação e a navegação internacionais não foram incluídas. As emissões das infraestruturas portuária e aeroportuária também foram avaliadas pelo Inventário, mas aparecem separadamente e não integram o resultado geral.
Do diagnóstico às decisões
Os resultados indicam que a redução das emissões dependerá de combinações diferentes para cada atividade. O tipo de operação, a disponibilidade de energia, a infraestrutura, o custo das tecnologias e a capacidade de investimento das empresas influenciam as alternativas disponíveis.
No modo rodoviário, a eletrificação ainda tem participação reduzida. Entre os veículos pesados, o estudo identifica desafios operacionais e de infraestrutura, além de diferenças de autonomia, recarga e perfil de utilização em relação aos modelos convencionais. Os biocombustíveis aparecem como uma alternativa a partir de tecnologias e cadeias produtivas existentes no país.
Entre as possibilidades, está o biometano, combustível renovável que pode contribuir para a redução das emissões e para o aproveitamento de resíduos. Já a eletromobilidade tende a ser mais adequada a rotas de menor distância, diante de limitações relacionadas à autonomia, ao tempo de recarga e à carga útil dos veículos.
A distribuição da movimentação entre os modos também faz parte dessa discussão. Ferrovias, hidrovias e cabotagem podem atender parte da demanda de longas distâncias com menor emissão por unidade transportada. Esse avanço depende da expansão da infraestrutura viária e de integração entre as modalidades e da previsibilidade regulatória.
O Inventário foi elaborado pela Ambipar, empresa especializada em soluções ambientais, com metodologias reconhecidas internacionalmente, como as diretrizes do IPCC, a ISO 14064 e o GHG Protocol. O trabalho também utilizou informações fornecidas por empresas e entidades do setor.
Para os veículos pesados, o estudo adotou dados do Despoluir na construção de curvas de intensidade de uso mais próximas da realidade brasileira. A metodologia considera a quilometragem média anual percorrida por caminhões, ônibus e comerciais leves a diesel e permite estimar as emissões de acordo com o perfil de utilização da frota.
A aplicação da mesma metodologia nos próximos levantamentos permitirá acompanhar a evolução das emissões e avaliar os efeitos de políticas públicas, investimentos, ganhos de eficiência e mudanças tecnológicas. O levantamento também está entre os estudos que poderão ser apresentados pela CNT durante a COP31.
Implementação no caminho para Antalya
Na COP31, uma das principais discussões será como cumprir os compromissos climáticos assumidos. O Inventário também contribui para essa discussão ao apresentar cases de empresas do setor e iniciativas voltadas à redução das emissões. Ao longo de 2026, a CNT observou um movimento ainda maior das empresas em torno da temática, com a adoção de soluções e tecnologias alinhadas à descarbonização.
Para o diretor adjunto nacional do SEST SENAT e líder do projeto Transporte e a COP31, Vinicius Ladeira, a participação na Conferência representa uma oportunidade de transformar o conhecimento acumulado pelo Sistema Transporte em resultados para o setor, conectando as necessidades do transporte brasileiro às soluções, parcerias e instrumentos capazes de acelerar a implementação da agenda climática.
“Chegamos a uma etapa em que precisamos avançar do conhecimento para a implementação. Queremos chegar a Antalya com estudos, experiências e propostas construídas a partir da realidade do transporte brasileiro e avançar nas condições necessárias para implementar e dar escala às soluções que já identificamos. O financiamento é parte fundamental desse processo. A transição só ganhará escala se as empresas tiverem condições de investir. Por isso, precisamos conectar os instrumentos e recursos disponíveis, no Brasil e no exterior, às necessidades e às diferentes realidades de quem efetivamente realiza o transporte”, afirma.
Rumo à COP31
Esta reportagem abre a série Rumo à COP31, que apresentará, nas próximas semanas, estudos e análises do Sistema Transporte sobre emissões, resiliência climática, renovação de frota, financiamento, mobilidade, fontes de energia e prioridades de sustentabilidade.
Os conteúdos vão relacionar esses temas aos debates da conferência e mostrar o que as discussões climáticas podem significar para o transporte brasileiro.
As reportagens serão publicadas na Agência CNT Transporte Atual e no hotsite da COP31, que concentrará notícias, estudos, vídeos e informações sobre a atuação do Sistema Transporte na conferência.
O Pavilhão Internacional do Transporte conta com o apoio da SLOCAT Partnership.
Acompanhe a preparação oficial para a COP31
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