Estudo da McKinsey mostra que o RH deixará cada vez mais o papel de gerenciar pessoas para atuar como arquiteto da transformação e guiar equipes no desenvolvimento de novas habilidades
Durante anos, o principal papel do RH foi contratar, desenvolver talentos e garantir a gestão das pessoas. Agora, a inteligência artificial está mudando essa lógica. Na avaliação da McKinsey & Company, o departamento de Recursos Humanos passa a ocupar uma posição estratégica: a de liderar a transformação do trabalho dentro das organizações.
O diagnóstico faz parte do HR Monitor 2026, estudo global divulgado no fim de julho pela consultoria, que aponta que o RH vive um “ponto de inflexão”. A pesquisa ouviu mais de 5.500 profissionais e cerca de 1.300 líderes de recursos humanos em dez países e conclui que o mercado de trabalho entrou em uma nova fase: a da economia das competências.
Mais do que implementar ferramentas de inteligência artificial, a área terá a missão de redesenhar como o trabalho será dividido entre pessoas e agentes de IA, quais habilidades precisarão ser desenvolvidas e como preparar a força de trabalho para essa transição.
“O RH precisa deixar de ser uma área de excelência funcional para se tornar o arquiteto da colaboração entre humanos e inteligência artificial”, afirma Monique Araújo, sócia da McKinsey no Rio de Janeiro e líder da prática de Pessoas, Organização e Performance no Brasil.
O CHRO, segundo a executiva, passa a exercer dois papéis complementares: o de arquiteto da transformação e o de “farol” para toda a organização, liderando pelo exemplo a adoção da IA dentro da própria área de Recursos Humanos.
O fim do planejamento baseado apenas em headcount
Uma das principais mudanças está na forma como as empresas planejam sua força de trabalho.
Até agora, grande parte das decisões do RH era baseada na quantidade de funcionários necessária para atender às demandas do negócio. Na era da inteligência artificial, esse modelo deixa de ser suficiente.
“O planejamento de pessoas deixa de ser cálculo de headcount (número de funcionários) e passa a ser planejamento de capacidades”, diz Monique.
Na prática, isso significa que o RH precisará antecipar quais atividades serão executadas por agentes de IA, quais continuarão sob responsabilidade humana e quais novas competências serão exigidas dos profissionais.
Esse exercício envolve projetar cenários de adoção da tecnologia, identificar lacunas de habilidades e preparar as equipes antes que as transformações aconteçam.
“O desafio deixa de ser quantas pessoas contratar e passa a ser quais capacidades a organização precisará desenvolver nos próximos anos.”
O maior risco não é perder empregos
A inteligência artificial deverá automatizar até 30% das horas de trabalho até 2030, segundo estimativas da McKinsey. Apesar disso, a consultoria afirma que a principal consequência não será uma onda de substituição de profissionais.
Mais de 70% das competências utilizadas atualmente continuarão sendo relevantes. O que muda é a natureza das atividades.
As tarefas repetitivas tendem a ser assumidas pela tecnologia, enquanto os profissionais dedicarão mais tempo à análise, tomada de decisão, criatividade e relacionamento com clientes.
“O verdadeiro desafio desse cenário não será a falta de vagas, mas a velocidade da requalificação”, afirma Monique.
Ela cita como exemplo uma empresa que automatizou todo o planejamento diário de frotas e rotas de entrega. Em vez de reduzir equipes, a organização requalificou esses profissionais para atuar diretamente com grandes clientes, ajudando a desenhar soluções para reduzir estoques e aumentar vendas.
“O trabalho operacional desapareceu, mas o profissional evoluiu para uma função estratégica de muito mais valor.”
Tecnologia avança mais rápido que as pessoas
Se a IA já faz parte da estratégia de boa parte das empresas, o mesmo não pode ser dito da preparação dos funcionários.
O HR Monitor 2026 mostra que 71% dos profissionais acreditam que a inteligência artificial afetará diretamente seus empregos e exigirá novas competências. Mesmo assim, apenas 31% dos trabalhadores nos Estados Unidos, 25% na Europa e 49% na China afirmam ter recebido treinamento formal em IA generativa oferecido pelas empresas.
Outro dado preocupa: 24% dos profissionais não participaram de nenhum treinamento corporativo nos últimos 12 meses.
Para Monique, o mercado vive um paradoxo.
“Cerca de 80% das organizações já têm algum nível de adoção de IA, mas a tecnologia está correndo muito mais rápido do que o desenvolvimento das pessoas.”
Organizações que conseguem capturar ganhos reais de produtividade, segundo a executiva, combinam: tecnologia com gestão da mudança, revisão de processos, acompanhamento dos líderes e incentivo contínuo ao uso da inteligência artificial.
IA deixa de ser diferencial
Outra conclusão do estudo é que a alfabetização digital deixou de ser uma competência desejável para se tornar praticamente obrigatória.
Entre as habilidades consideradas mais importantes para o futuro, a capacidade de utilizar inteligência artificial saltou da 20ª para a 6ª posição no ranking elaborado pela McKinsey.
Para a especialista, isso mostra que dominar IA será tão básico quanto hoje é saber utilizar ferramentas digitais.
Ao mesmo tempo, justamente por causa da tecnologia, algumas competências humanas ganham ainda mais importância.
Entre elas estão o julgamento crítico, a criatividade e as habilidades de relacionamento.
“A IA consegue processar dados em escala. Mas interpretar contextos complexos, tomar decisões éticas, construir confiança e liderar pessoas continuam sendo capacidades essencialmente humanas.”
O RH precisa preparar líderes, não apenas funcionários
A transformação também muda profundamente o papel da liderança. Historicamente, gestores gastam boa parte do tempo acompanhando indicadores, controlando processos e supervisionando tarefas operacionais.
Com a IA assumindo parte desse trabalho, o líder passa a atuar principalmente como desenvolvedor de talentos.
“O gestor deixa de ser um fiscal de entregas e passa a ser um arquiteto dos fluxos de trabalho.”
Isso exige uma mudança importante dentro das empresas.
Segundo outra pesquisa da McKinsey citada por Monique, apenas um quarto dos gestores afirma receber treinamento adequado para desenvolver pessoas.
Esse déficit aparece também na percepção dos funcionários.
Enquanto o RH acredita que apenas 3% dos colaboradores passam um ano sem receber feedback, 20% dos profissionais afirmam não ter recebido nenhum retorno nos últimos 12 meses, e 58% dizem receber feedback apenas uma ou duas vezes por ano.
“O feedback deixa de ser um ritual administrativo e precisa voltar a ser uma conversa contínua de desenvolvimento.”
O RH do futuro será menos operacional e mais estratégico
Na visão da McKinsey, a inteligência artificial deverá automatizar até 40% das horas de trabalho do próprio RH até 2030.
Atividades administrativas, como recrutamento operacional, admissões, processamento de documentos e parte da gestão de folha tendem a ser realizadas por agentes de IA.
Isso libera espaço para que os profissionais da área atuem de forma mais estratégica, apoiando lideranças, analisando dados da força de trabalho, antecipando necessidades futuras e conduzindo processos de transformação organizacional.
“O RH do futuro deixa de focar em formulários e passa a focar em empatia, julgamento ético e no redesenho contínuo da colaboração entre humanos e inteligência artificial”, afirma Monique.
Para ela, o sucesso da IA nas empresas dependerá menos da tecnologia em si e mais da capacidade das organizações de preparar pessoas para trabalhar ao lado dela.
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