Micromobilidade e logística urbana
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*Por Fernando Zingler

Nos últimos tempos, muito tem se falado sobre micromobilidade. Este termo, cuja definição ainda está sendo desenhada, se refere às novas alternativas de transporte de curta distância utilizando veículos menores que o automóvel, notavelmente com tecnologias disruptivas e com menor emissão de poluentes.

É o caso dos patinetes elétricos, bicicletas compartilhadas, skates, entre tantos outros meios de transporte que abusam da criatividade humana. Esses formatos alternativos também se diferem pela forma de contratação e pagamento do transporte, geralmente estes serviços são controlados pelo uso de aplicativos em celulares.

A micromobilidade criou um novo nicho de transporte, principalmente para pequenos trechos urbanos nos quais antigamente os usuários costumavam utilizar ônibus e táxis para percorrer, e vem ganhando espaço e concorrendo com outros formatos, além de impactar na distribuição urbana de cargas.

No transporte de cargas, a última milha chega a representar cerca de 28% dos custos totais do percurso inteiro, e ainda consome uma porção de tempo e recursos muito grande em relação à jornada total.

Com a popularização de novos meios é natural que as empresas procurem se adaptar às alternativas e utilizar esta onda a seu favor. Em São Paulo, já vemos uma transformação muito grande na entrega de alimentos e serviços em centros comerciais, como por exemplo a Avenida Paulista e a Avenida Faria Lima, nas quais os serviços de micromobilidade frequentemente são utilizados por entregadores de refeições, e de serviços também ligados à aplicativos.

Entretanto, na distribuição de cargas o mercado ainda está se configurando para ampliação destes modos de transporte, até mesmo com a utilização de miniterminais e pontos de transbordo móveis em regiões dos centros metropolitanos. Visando principalmente, resolver o problema das entregas de e-commerce, conhecidas por serem muito fracionadas e de difícil consolidação. E ainda, há a promessa de entregas utilizando drones, que deve se unir neste modelo de transporte num futuro breve.

Embora a tendência e a proposta de se reduzir o trânsito tradicional com novos modelos seja válida, é importante ressaltar que esta categoria de transporte traz novos problemas de segurança viária. A principal dificuldade é a utilização da infraestrutura das calçadas para o deslocamento, competindo diretamente com os pedestres, um grupo mais vulnerável à acidentes.

Na utilização das ciclovias e ciclofaixas também há um ponto de alerta, pois a velocidade e as especificações de segurança destes veículos são diferentes dos veículos ao qual essa infraestrutura foi designada, principalmente no caso de transporte de cargas no qual o condutor frequentemente utiliza uma mochila do tipo caixa ou algum anexo ao veículo que o torna maior que a dimensão original. O número de incidentes e acidentes envolvendo estes modos faz com que a população questione a validade do serviço oferecido, polarizando as opiniões e dificultando a implementação efetiva deste modelo.

Este é o tema central do debate sobre a regulamentação destes veículos e serviços – os quais São Paulo recentemente regulamentou por meio de um decreto, cobrando um valor sobre as viagens dos usuários, criando regras para estacionamento e circulação e exigindo a utilização de equipamentos de segurança obrigatórios para os condutores.

Os efeitos desta regulamentação são ainda imprevisíveis, por se tratar de um mercado extremamente dinâmico e com poucos casos de referência, mas mostra que há uma tendência de se orientar as empresas que fornecem estes serviços a promover a segurança viária, além de redesenhar as vias de circulação, a fiscalização do uso e a velocidade máxima que os veículos podem atingir.

No transporte de cargas, atualmente há um limite para transporte de volumes de até 5kg por estes meios, o que também limita as possibilidades de expansão do serviço.

As autoridades públicas devem olhar para a micromobilidade como uma oportunidade de construir uma cidade mais acessível aos seus cidadãos, oferendo uma variedade de opções de mobilidade para que o usuário possa escolher qual se sente mais confortável. No transporte de cargas, ainda não há investimentos para justificar a migração total para estes serviços, porém com a criação de vias segregadas dedicadas e pontos de transbordo de caminhões (VUC) para este modal podem refletir numa diminuição de custos significativa para as empresas de transportes – e menos trânsito para os centros urbanos.

O mercado na América do Sul já conta com mais de 100.000 patinetes elétricos e 35.000 bicicletas, com planos de duplicar esta frota no próximo ano (Grow Mobility). Dados os potenciais benefícios, o equilíbrio entres os interesses das cidades, dos usuários e das empresas que oferecem os serviços deve ser buscado para que todos estejam preparados para a próxima onda de inovação na mobilidade.

*Fernando Zingler é Diretor Executivo do IPTC e tem mestrado em Engenharia de Transporte pela Universidade de Nova Iorque


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