Pesquisa indica também como está a saúde mental de gestores e funcionários
O prazo para o início das fiscalizações e autuações relacionadas à NR-1, norma que inclui riscos psicossociais entre os riscos organizacionais, é maio de 2026 – ainda que o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) já tenha sinalizado um possível novo adiamento para esse tema.
Mesmo com o prazo se aproximando, uma nova pesquisa, feita pela The School of Life Brasil, escola de inteligência emocional, em parceria com a consultoria de recrutamento executivo Robert Half, indica que 35% dos líderes não têm conhecimento básico para apoiar as empresas no cumprimento das exigências da atualização da NR-1. Entre os liderados, 49% não têm conhecimento sobre a NR-1 ou sua atualização.
A 8ª edição da Pesquisa Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho, antecipada ao Valor, coletou a percepção de 774 profissionais do Brasil com nível superior e mais de 25 anos de idade, sendo 387 líderes e 387 liderados, entre os dias 5 e 30 de janeiro deste ano.
Para Maria Sartori, diretora da Robert Half, esse dado evidencia um desalinhamento crítico entre a relevância do tema e o nível de preparo das organizações. “A atualização da NR-1 formaliza a gestão de riscos psicossociais como parte da agenda regulatória, porém ainda não foi plenamente absorvida nem por quem lidera nem por quem executa”, afirma. “Quando uma parcela relevante dos líderes desconhece ou não domina o tema, a empresa perde capacidade de traduzir a norma em prática de gestão.”
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Ela pontua que ainda existe incerteza jurídica sobre como esses riscos serão mapeados na prática e como eventuais sanções serão conduzidas. Mas reitera que esse cenário não reduz a urgência. “Ao contrário, exige preparo. Com a nova norma entrando em vigor em maio, adiar a estruturação significa operar sem diretrizes claras em um tema que já impacta diretamente o negócio.”
Segundo a pesquisa, somente 27% dos líderes afirmam que suas empresas estão totalmente ou bem preparadas e estruturadas para atender às exigências da nova NR-1.
Isso, diz Sartori, expõe as organizações a riscos jurídicos, reputacionais e operacionais. “Na prática, isso significa falta de controle sobre fatores que afetam produtividade, engajamento e retenção”, afirma. “Mesmo já sendo um elemento central de continuidade operacional, muitas empresas ainda tratam saúde mental como pauta periférica.”
A pesquisa também buscou entender como está a saúde mental dos profissionais entrevistados.
Nos últimos 12 meses, 22% dos líderes receberam diagnóstico de estresse, ansiedade ou burnout – número inferior aos 27% detectados no levantamento anterior, de agosto de 2025. Entre os liderados, a situação é inversa: nos últimos 12 meses, 29% receberam diagnóstico de estresse, ansiedade ou burnout, ante 26% na pesquisa anterior.
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Saulo Velasco, psicólogo e head de aprendizagem na The School of Life Brasil, diz que esse movimento pode indicar níveis distintos de exposição a riscos psicossociais associados ao burnout e a fatores de proteção entre líderes e liderados. Ele exemplifica: “os líderes podem estar desenvolvendo maior consciência sobre saúde mental e estratégias de enfrentamento, além de terem mais autonomia e controle sobre o trabalho, fatores que podem funcionar como proteção para o adoecimento”. Já os liderados, continua Velasco, continuam mais expostos a condições de risco psicossocial, como menor autonomia, previsibilidade, clareza sobre prioridades e reconhecimento.
“Do ponto de vista psicológico, dois fatores são centrais na prevenção do burnout: autonomia e senso de controle. Líderes, em geral, têm mais capacidade de priorizar, negociar prazos e reorganizar demandas. Líderes, em geral, têm mais capacidade de priorizar, negociar prazos e reorganizar demandas. Já os liderados tendem a operar com menor margem de decisão, o que aumenta a sensação de impotência”, explica. “Além disso, não é raro, nas conversas entre a The School of Life e empresas de diferentes setores, tomarmos conhecimento de contextos organizacionais que enfrentam redução de estruturas, aumento de produtividade exigida e acúmulo de funções. São fatores que costumam impactar mais fortemente quem está na execução, ampliando a carga emocional e operacional dos liderados.”
Ele pontua, ainda, que, em alguns casos, há também um efeito de subnotificação por parte da liderança. “Líderes, por estarem em posição de responsabilidade, muitas vezes sentem maior pressão para demonstrar estabilidade emocional”, afirma. “Isso pode levar a uma menor busca por diagnóstico formal, mesmo quando há sofrimento, reduzindo artificialmente os números. Nesse sentido, o burnout pode estar sendo menos diagnosticado formalmente entre líderes, mas não necessariamente menos vivido.”
Para a pergunta “você utiliza medicação psicofarmacológica para lidar com sintomas de estresse, ansiedade ou burnout”, 21% dos líderes responderam sim – ante 52% na coleta de dados anterior – e 30% dos liderados também dera respostas afirmativas – ante 59% do levantamento anterior.
Velasco comenta que a redução no uso de medicação não deve ser interpretada automaticamente como melhora da saúde mental. “Em muitos casos, ela pode refletir interrupção de tratamentos, dificuldade de acesso ou, principalmente, o silenciamento do sofrimento emocional dentro das organizações”, avalia. “Isso é nítido quando, nas experiências da The School of Life relacionadas à saúde mental, os participantes se abrem para revelar suas próprias dores. São momentos de exposição da vulnerabilidade, que acontecem tanto em encontros corporativos quanto para o público em geral.”
Ele diz que, psicologicamente, a medicação costuma aparecer como um marcador de quando o sofrimento se torna visível e legitimado. “Quando esse uso diminui de forma significativa, enquanto outros indicadores de desconforto e sobrecarga permanecem, é possível que o sofrimento esteja se tornando mais invisível e internalizado, manifestando-se em formas como desengajamento, apatia ou exaustão silenciosa”, explica. “Mais do que um alívio, esse dado pode indicar uma mudança de padrão: o sofrimento não desapareceu, mas pode estar apenas menos nomeado, menos tratado e mais solitário.”
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