Fim da escala 6×1 pode elevar custos logísticos; entidades do setor avaliam impactos
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Propostas que alteram a jornada de trabalho no Brasil podem agravar o cenário de escassez de motoristas e influenciar aumento de custos operacionais

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 pode impactar diretamente o funcionamento do transporte rodoviário de cargas no Brasil. Entidades do setor de logística alertam que as alterações na jornada de trabalho tendem a agravar o cenário de escassez de motoristas e podem elevar os custos operacionais.

Segundo o Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (SETCESP), as alterações estruturais na jornada de trabalho precisam considerar as especificidades da atividade, sob risco de comprometer a eficiência logística.

“Um dos principais pontos de atenção é a falta de mão de obra, especialmente de motoristas profissionais. A redução da carga horária, sem a existência de trabalhadores disponíveis no mercado, tende a agravar esse cenário”, avaliou o presidente do SETCESP, Marcelo Rodrigues.

Para a entidade, esse cenário pode exigir mais contratações para manter o mesmo nível de serviço anterior. Como resultado, o setor terá um aumento dos custos operacionais, administrativos e trabalhistas. “É importante lembrar a todos que esses custos não sumirão. Eles serão diluídos na cadeia logística e, no final, quem sentirá o peso no bolso será o consumidor”, destacou Rodrigues.

Essa visão é reforçada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT). De acordo com a entidade, a redução da jornada, sem considerar as especificidades do transporte, pode gerar impactos relevantes para toda a sociedade, pois o setor já enfrenta dificuldades de reposição de mão de obra qualificada.

Dados da pesquisa Sistema Transporte da CNT de 2021 mostram que 65,1% das empresas de transporte rodoviário de cargas relatam falta de motoristas profissionais, além da falta de mecânicos e profissionais de manutenção (19,2%), gerentes operacionais (15,1%) e trabalhadores administrativos (14,4%).

A escala 6×1 pode agravar esse cenário. Assim, a CNT defendeu que reduzir a jornada sem haver trabalhadores suficientes para suprir a demanda amplia o déficit, eleva custos e pode comprometer a regularidade dos serviços prestados à população.

SUGESTÕES DO SETOR
Diante desse cenário, entidades do setor sugerem caminhos possíveis. A CNT defendeu que o caminho mais adequado para tratar da jornada de trabalho é a negociação coletiva.

“Esse instrumento permite que trabalhadores e empregadores ajustem as condições de trabalho às necessidades específicas de cada setor, região e empresa, garantindo equilíbrio, segurança jurídica e respeito às particularidades de cada uma das atividades econômicas”, destacou. A entidade ainda trouxe que nos setores onde a jornada 5×2 é factível, ela já é praticada.

O SETCESP, que apoia avanços e melhoria nas relações e condições de trabalho, também apontou que mudanças dessa magnitude devem ser discutidas no âmbito da modernização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Para o sindicato, o processo deve ser realizado com diálogo, responsabilidade técnica e análise dos impactos econômicos e sociais, especialmente em setores estratégicos como o do transporte rodoviário de cargas.

Em comunicado, a entidade defendeu que qualquer mudança na jornada considere as dificuldades do setor, como os impactos operacionais e logísticos, o aumento de custos e seus reflexos nos preços, além da segurança jurídica e da viabilidade econômica. “O SETCESP permanece à disposição para contribuir com dados, estudos e diálogo institucional, em defesa do transporte e do desenvolvimento da economia brasileira”, ressaltou.

ESG E O FIM DA ESCALA 6X1

O fim da escala 6×1 pode ainda ser analisado por outra ótica: a agenda ESG. Do ponto de vista do pilar social, poderia a proposta ir ao encontro tanto do bem-estar dos trabalhadores quanto das empresas interessadas em potencializar o ESG?

Além de promover ambientes mais saudáveis e produtivos, a medida também pode impulsionar o consumo e a geração de empregos. Com exclusividade para a MundoLogística, a diretora-executiva da ABOL, Marcella Cunha, apontou que a qualidade de vida no trabalho é central para os objetivos do pilar social da agenda ESG.

A executiva defendeu que a medida dialoga diretamente com o pilar social (S) da agenda ESG, que busca equilibrar bem-estar humano, justiça social e sustentabilidade econômica.

Ela definiu essa mudança como “um avanço significativo no pilar ‘S’”, com o potencial de transformar a relação entre trabalho e vida pessoal, promovendo um ambiente mais saudável e equilibrado para os trabalhadores.

No entanto, a diretora-executiva da ABOL alertou que o impacto positivo dessa transformação só será alcançado se vier acompanhado de políticas estruturadas com condições dignas de trabalho, investimentos em capacitação e reconhecimento do trabalhador, com políticas de valorização e inclusão.

Na visão da executiva, no curto prazo, a redução da jornada de trabalho exigirá contratações adicionais, particularmente em funções operacionais como motoristas e operadores de armazém. Nos casos de médio e longo prazo, Marcella chamou a atenção para a tendência de automação como uma estratégia que algumas empresas podem adotar para otimizar processos e reduzir custos.

PRÓXIMOS PASSOS DO FIM DA ESCALA 6X1

Mesmo com todos esses planos, a escala 6×1 ainda não possui previsão para ser extinta. Atualmente, tanto a PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (Psol-SP) — que prevê as mudanças no sistema em que funcionários trabalham seis dias e possuem um dia de descanso — quanto à PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) — que procura a diminuição da carga horária semanal — foram encaminhadas para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ).

Segundo a Agência Câmara de Notícias, o colegiado irá analisar a admissibilidade das propostas. Se for aprovada, segue para análise de uma comissão especial. Para uma rádio na Paraíba, o presidente da Câmara dos Deputados, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que a pauta é uma demanda antiga da classe trabalhadora com impacto direto na economia brasileira.

“É importante lembrar que, quando nossa carteira de trabalho foi criada, fizeram péssimas projeções. A escala 6×1 precisa ser diminuída. Vamos dar um passo firme na dignidade do trabalhador, mais qualidade de vida e respeito aos brasileiros”, destacou o político.

O fim da escala 6×1 foi citado como uma das prioridades do governo para 2026. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, destacou a preocupação com o tema discurso na cerimônia de encerramento do Fórum Empresarial Brasil-Coreia do Sul.

“Estamos discutindo no Brasil o fim da chamada jornada seis por um, para assegurar que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal. A tecnologia nos permitiu atingir níveis inimagináveis de produtividade. É hora de pensar no bem-estar das pessoas”, afirmou Lula.

Ele destacou que o mundo do trabalho está em transformação. “O filósofo coreano Byung-Chul Han diz que vivemos em uma sociedade do cansaço, em que a pressão pelo desempenho afeta o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional”, apontou.


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