“Custo invisível”: o que o índice global de percepção de corrupção representa para as empresas brasileiras?
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Dados da Transparência Internacional mostram que o Brasil manteve em 2025 a segunda pior nota histórica do índice, abaixo de países como Argentina e Ucrânia

O Brasil ainda está abaixo da média global quando o assunto é corrupção. Os dados são da Transparência Internacional, que divulgou nesta terça-feira (10) o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), levantamento anual que mostra como especialistas e executivos enxergam o nível de corrupção no setor público.

Em 2025, o Brasil manteve a segunda pior nota histórica do índice, com um total de 35 pontos em uma escala que vai de zero a 100 pontos – quanto mais baixa for a nota, pior a percepção. Com isso, o país ficou na 107ª posição de 182 países avaliados.

A média global foi de 42 pontos e os mais bem colocados foram Dinamarca (89 pontos), Finlândia (88 pontos) e Cingapura (84). Os mais mal avaliados foram Somália (9 pontos), Sudão do Sul (9 pontos) e Venezuela (10 pontos). O Sri Lanka teve a mesma pontuação do Brasil, enquanto países como Argentina e Ucrânia fecharam o índice com um ponto a mais.

Publicado desde 1995, o IPC é considerado o principal ranking internacional sobre o tema, reunindo dados de fontes independentes para avaliação de especialistas, pesquisadores, executivos e instituições especializadas em governança.

Mas o que isso representa para as empresas brasileiras e para o ecossistema de inovação, representado por investidores de venture capital, aceleradoras e startups? Época NEGÓCIOS conversou com especialistas para entender o impacto do resultado nos seus negócios.

Para Gustavo Gierun, managing partner do Distrito, a corrupção funciona como um entrave estrutural ao desenvolvimento do país. “A corrupção é um custo invisível de capital para todo o Brasil. Além de afetar a imagem do país, impacta diretamente a decisão de alocação de capital dos gestores ao redor do mundo. Para o venture capital, isso se traduz em maior percepção de risco regulatório, jurídico e institucional, afastando os investidores que não conhecem profundamente o país. Para as startups, afeta a disponibilidade de capital de risco para criar novas soluções de mercado. Com isso, a inovação fica em segundo plano.”

Ele pondera, no entanto, que o cenário não elimina o potencial do ecossistema brasileiro. “Temos empreendedores incríveis que aprenderam a lidar com estes desafios, de maneira séria e honesta, e estão construindo empresas de nível global, além de fundos e investidores que estão comprometidos com o longo prazo no país.”

Questionado sobre como o ecossistema pode contribuir para mudar esse cenário, Gierun destaca a importância da governança e do exemplo prático. “Mudar este cenário exigirá tempo e dedicação. O ecossistema ajuda implementando forte governança, transparência e dando exemplo para todos que querem fazer o bem. Além disso, vale ressaltar o papel das govtechs e legaltechs, que têm utilizado a tecnologia como indutor de transparência, rastreabilidade e inteligência no setor público.”

Geraldo Melzer, cofundador do fundo de investimentos ABSeed, afirma que o resultado do índice não favorece o ambiente de venture capital, especialmente quando se trata de capital estrangeiro. “Regiões que estivessem pensando em estar mais próximas, em investir, em se aproximar da nossa região, podem desistir ou ficar eventualmente menos interessadas diante dessa deterioração desse índice.”

Por outro lado, o ambiente de investimento em venture capital, principalmente no estágio inicial, é muito pouco correlacionado com o cenário macro, diz. “À medida que essas empresas crescem muito e viram empresas grandes, acabam mais sensíveis a esses efeitos”, afirma.

Para Rodrigo Spínola, CEO da Dalton Lab, startup de inteligência artificial, o cenário é, sim, muito delicado. “A corrupção não é só um problema moral, ela é um imposto invisível sobre inovação. Quando um país tem alta percepção de corrupção, o capital internacional simplesmente vai para outro lugar. O investidor global olha esses índices antes de alocar dinheiro em venture capital aqui. Isso encarece as rodadas e reduz o apetite por risco. E, no fim, quem paga a conta é o fundador brasileiro que precisa fazer mais com menos.”

Além disso, Spínola entende que o resultado gera um efeito colateral menos discutido: o aumento da burocracia. “A corrupção gera burocracia defensiva, e o Estado cria camadas de controle que acabam travando quem quer inovar. Então, a startup brasileira compete com uma mão amarrada: menos capital disponível e mais fricção regulatória. Esse índice não é só um número, é um reflexo direto do quanto custa inovar aqui no Brasil.”

Sobre o papel do setor na mudança desse cenário, ele defende uma postura ativa. “O ecossistema de inovação tem um papel que vai muito além de reclamar. A gente constrói tecnologia. A tecnologia é o maior motor de transparência que existe. Cada startup que digitaliza um processo público, cada solução de IA que automatiza fiscalização, cada ferramenta que dá visibilidade a dados governamentais está atacando a raiz da corrupção.”

Para ele, a resposta está na construção de soluções. “O ecossistema não precisa só cobrar mudança, ele precisa construir as ferramentas que tornam a corrupção tecnicamente mais difícil de acontecer”, afirma.

 

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