Empresas ainda falham em mapear riscos socioambientais nas cadeias de suprimentos
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Estudo da World Benchmarking Alliance aponta que menos de 10% das companhias avaliam riscos de direitos humanos, enquanto apenas 29% têm metas para reduzir emissões de escopo 3

A resiliência das cadeias globais de suprimentos está sob risco diante da falta de gestão adequada de impactos relacionados a direitos humanos, clima e natureza. Menos de 10% das empresas avaliam riscos de direitos humanos em suas cadeias, enquanto apenas uma em cada cinco rastreia seus produtos para compreender impactos ambientais.

É o que mostra o relatório “Benchmark Hub 2026”, publicado esta semana pela World Benchmarking Alliance (WBA), que avaliou 2.000 das empresas mais influentes do mundo, classificando e mensurando seu impacto sobre as pessoas e o planeta. Juntas, essas companhias geram cerca de US$ 53 trilhões em receitas e respondem por aproximadamente 54% das emissões globais de gases de efeito estufa. Elas empregam diretamente 107 milhões de pessoas. Utilizam recursos naturais provenientes de mais de 110 países, impactando, nas cadeias globais, cerca de 550 milhões pessoas empregadas nas empresas de seus fornecedores.

As emissões de gases de efeito estufa a montante também são expressivas, respondendo por aproximadamente 70% das emissões em setores como commodities agrícolas, alimentos e bebidas.

Cadeias longas e complexas expõem as companhias a riscos relevantes, que vão desde passivos legais até choques de preços. Ao mesmo tempo, as práticas de compra e relacionamento com fornecedores influenciam diretamente o bem-estar de trabalhadores, comunidades e ecossistemas. Para atuar de forma responsável, as empresas precisam não apenas compreender seus riscos e impactos em direitos humanos, clima e natureza, mas também demonstrar que possuem mecanismos para gerenciá-los.

Quase metade das empresas avaliadas possui um código de conduta para fornecedores, o que indica algum grau de conscientização sobre os impactos da cadeia. No entanto, um número significativamente menor mede esses impactos ou adota medidas efetivas de gestão de riscos.

A avaliação se baseia em dados públicos relacionados à diligência em direitos humanos nas cadeias de suprimentos, às metas de redução de emissões de escopo 3 e à rastreabilidade dos impactos ambientais associados aos produtos adquiridos.

O dever de respeitar os direitos humanos ao longo das operações e das cadeias de suprimentos é um princípio central das Diretrizes da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos. Ainda assim, apenas uma em cada dez empresas identifica e avalia riscos de direitos humanos em sua cadeia. Em setores considerados de maior risco — como alimentos e produtos agrícolas, vestuário e calçados, fabricantes automotivos e empresas de tecnologia da informação e comunicação — esse percentual chega a apenas 14%. Além disso, menos de 10% das companhias adotam ações para prevenir, mitigar ou reparar seus principais riscos.

A descarbonização alinhada à meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C também exige atuação ao longo da cadeia de suprimentos. As empresas precisam reduzir suas próprias emissões e trabalhar com fornecedores para cortar emissões de escopo 3. Entre mais de 1.300 empresas da economia real que devem divulgar esse tipo de informação, 29% possuem metas válidas de curto prazo para emissões de escopo 3. Além disso, 95% das companhias que estabeleceram metas também reportam suas emissões por categoria de atividade a montante, o que permite identificar focos de emissões e direcionar ações.

A rastreabilidade dos produtos ainda é limitada. Apenas uma em cada cinco empresas acompanha a origem de seus produtos, etapa considerada essencial para compreender impactos sobre a natureza, em linha com as expectativas do Marco Global da Biodiversidade. A maior parte dos danos ambientais ocorre fora da visibilidade direta das empresas, em fazendas, florestas e pescarias. Sem visibilidade da cadeia, as companhias não conseguem detectar ou enfrentar problemas como desmatamento ilegal ou uso excessivo de água.

Entre as empresas que realizam algum nível de rastreabilidade, quase dois terços descrevem seus sistemas, menos da metade divulga dados coletados ou ações de engajamento com fornecedores, e apenas 13% identificam seus fornecedores. Isso mantém limitada a transparência e a responsabilização sobre impactos ambientais ao longo da cadeia.

Algumas empresas, no entanto, apresentam práticas consideradas de referência. Companhias de alimentos e agricultura, como Barry Callebaut e Nestlé, dialogam com partes impactadas em seus processos de diligência em direitos humanos e colaboram com fornecedores para reduzir a defasagem de renda de produtores. Outras empresas, como Charoen Pokphand Foods (CPF), Holcim e Mowi, engajam fornecedores e criam incentivos para reduzir emissões de carbono de escopo 3.

A empresa norueguesa Norsk Hydro adota práticas de rastreabilidade que permitem monitorar impactos ambientais na cadeia, com triagens, auditorias e planos de ação corretiva junto a fornecedores. Outras companhias, como a Danone, colaboram com plataformas setoriais e organizações locais. Empresas como Adidas e Fast Retailing divulgam informações sobre fábricas e fornecedores, o que permite verificação externa de práticas e avaliação de riscos socioambientais.

Apesar desses exemplos citados pela WBA, apenas 20 empresas demonstram considerar, de forma integrada, impactos e riscos em direitos humanos, clima e natureza. Muitas pertencem ao setor de alimentos e varejo, com cadeias longas e maior exposição reputacional. Metade dessas empresas está sediada na União Europeia, indicando a influência do ambiente regulatório sobre o comportamento corporativo.

O levantamento aponta que a integração entre direitos humanos, clima e natureza na gestão das cadeias de suprimentos será decisiva para a resiliência dos negócios. Empresas que avançarem nessas três frentes tendem a fortalecer a gestão de riscos e a sustentabilidade de longo prazo.


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