Por Aline Maciel
Setor registra alta superior a 25% nas admissões no primeiro semestre de 2026, mas retomada ainda é desigual entre regiões e funções
Há quatro anos o setor de transporte não registrava números tão bons de contratação. No primeiro semestre de 2026, foram abertos 44.633 novos contratos formais, número 26,29% superior ao observado no mesmo período de 2025.
O resultado recoloca as contratações em um patamar próximo ao dos períodos de maior movimentação da série recente. Os dados são de um levantamento feito pelo IPTC (Instituto Paulista do Transporte de Cargas) com base em informações do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
A trajetória dos últimos anos ajuda a dimensionar a mudança. Entre 2022 e 2025, o número acumulado de admissões no primeiro semestre caiu de 44.739 para 35.341.
A recuperação das contratações no TRC ocorre em um momento de maior aquecimento do mercado de trabalho brasileiro. A PNAD Contínua, pesquisa do IBGE que acompanha indicadores de emprego e renda, também aponta uma taxa de desocupação em seu menor nível da série histórica.
“Pode existir uma relação entre os dois movimentos, mas eles não devem ser confundidos. Enquanto a PNAD retrata o mercado de trabalho como um todo, os dados analisados pelo IPTC concentram-se especificamente nos empregos formais dentro do setor”, explica Raquel Serini, economista e coordenadora de projetos do IPTC.
Para Serini, a baixa taxa de desocupação ajuda a compor o cenário econômico no qual ocorre a recuperação do TRC, mas não pode ser considerada, isoladamente, a explicação para o aumento das contratações.
Já o presidente do Conselho Superior e de Administração do SETCESP, Marcelo Rodrigues, considera que um dos fatores que pode estar contribuindo para esse bom resultado no transporte rodoviário de cargas é justamente o momento de menor atividade econômica em outros setores.
“Profissionais que estavam atuando na informalidade encontram hoje mais dificuldade para gerar renda suficiente e acabam buscando novamente o emprego formal, com carteira assinada, salário e benefícios”, comenta Rodrigues.
Sudeste puxa a retomada
A recuperação, porém, não acontece de maneira uniforme pelo país. A geografia do emprego mostra que o Sudeste foi o principal motor desse movimento.
Das 44.579 vagas líquidas geradas pelo setor entre janeiro e junho de 2026, — saldo obtido após considerar as contratações e os desligamentos descontando 54 registros que não informaram a região de origem — a região Sudeste concentrou mais de 80% do saldo nacional. Foram 35.989 postos no primeiro semestre, contra 24.120 registrados no mesmo período de 2025. Um crescimento de quase 50%.
O Nordeste também seguiu com uma alta expressiva. Depois de registrar saldo negativo de 249 vagas no primeiro semestre de 2025, a região passou para um resultado positivo de 646 postos no mesmo período de 2026.
Em outras regiões, o comportamento foi diferente. No Centro-Oeste, o saldo recuou de 5.020 para 2.878 vagas. No Sul, caiu de 5.684 para 4.471 postos. No Norte, foi de 794 para 595.
O mapa do emprego, portanto, revela uma retomada concentrada no Nordeste e no Sudeste, enquanto outras regiões ainda apresentam estagnação ou redução mais moderada.
“O Sudeste concentra uma parcela muito importante da atividade econômica, industrial, comercial e logística brasileira. Naturalmente, quando existe uma retomada das contratações no transporte, essa região tende a responder de maneira mais significativa”, observa o presidente do SETCESP.
Motoristas continuam no centro da demanda
Se a distribuição regional mostra que a retomada não é homogênea, a análise das ocupações revela outro aspecto importante: o movimento está fortemente concentrado nas atividades operacionais.
A ocupação de motorista de caminhão (rotas regionais e internacionais) lidera isolada, com o total bruto (sem considerar as demissões) de 146.178 admissões no período, o equivalente a 33,2% de todas as contratações do TRC no semestre. Ou seja, a cada três trabalhadores admitidos no setor, um foi contratado para dirigir.
Na sequência aparecem funções diretamente ligadas à operação, como auxiliar de logística e ajudante de motorista. Juntas, elas representam 25% das admissões.
Os cargos administrativos aparecem em um patamar bem inferior. Auxiliar de escritório e assistente administrativo aparecem entre as cinco ocupações com maior número de admissões, mas, somados, representam menos de 7% das contratações.
Aliás, em conjunto, as cinco ocupações mais contratadas concentraram 286.108 admissões, ou 65% do total contratado.
“Os 35% restantes se distribuem de forma pulverizada entre dezenas de outras funções do setor, sem que nenhuma delas isoladamente rivalize com o volume das ocupações de linha de frente”, esclarece Serini.
Segundo a coordenadora, o dado reforça uma característica importante da retomada: ela está acontecendo principalmente onde o caminhão, a carga e a operação estão no centro do negócio.
“Motoristas, auxiliares de logística e ajudantes de motorista, juntos, respondem por mais da metade das admissões, indicando que o avanço do emprego está diretamente relacionado à atividade operacional do transporte”, afirma a economista.
Escolaridade muda perfil do gênero
A análise das admissões sob a ótica do nível de escolaridade expõe variações na proporção entre homens e mulheres contratados, em um cenário que muda conforme aumenta o nível de escolaridade.
Ou seja, a participação dos homens chega a 90,5% entre os admitidos classificados como analfabetos, a 83,1% entre aqueles com fundamental 2 completo e a 77,6% no grupo com ensino médio completo.
Mas, quando chega no patamar de ensino superior completo o quadro já está bem mais equilibrado. A proporção de mulheres entre os admitidos alcança 45%, ante 55% de homens.
O contraste sugere que a presença feminina se torna mais expressiva à medida que avançam as exigências de formação, especialmente em funções técnicas, analíticas e administrativas.
Porém, nas ocupações que concentram o maior contingente de trabalhadores do setor, que são as de menor nível de instrução, a participação masculina continua amplamente majoritária.
Sinal verde, mas ainda incerto
Ainda que o panorama do primeiro semestre de 2026 indique a retomada do volume de admissões formais, o quadro não permite afirmar que o mesmo ritmo será mantido até o final do ano.
De acordo com Rodrigues, ainda é cedo para afirmar que o aumento das contratações representa uma mudança consistente no nível de confiança dos empresários ou uma expectativa generalizada de forte crescimento da economia.
“O dado do IPTC é positivo, mas só poderemos enxergar um cenário mais consistente e de expansão se essa tendência vier acompanhada de crescimento da movimentação de cargas e de melhores condições econômicas nos próximos meses”, avalia ele.
Rodrigues lembra ainda que no transporte rodoviário de cargas, a dificuldade de contratação e retenção de profissionais tem sido uma preocupação constante e por isso, houve melhoria das condições previstas na última Convenção Coletiva, o que também contribuiu para tornar essas vagas do setor na região mais atrativas.
“O TRC voltou a contratar em níveis próximos aos observados antes da desaceleração dos últimos anos, por outro lado, esse crescimento não ocorreu de maneira uniforme em todas as regiões do país. Portanto, neste momento, considero mais adequado falar em uma retomada das contratações do que projetar a continuidade desse desempenho”, afirma Serini.
Assim, segundo a economista, os dados do primeiro semestre funcionam mais como um sinal de mudança de direção do que como uma linha de chegada. O tempo mostrará se a alta foi pontual ou se estamos, de fato, diante de uma recuperação consistente do mercado de trabalho no setor.
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