Marina Lima: “Quase não se observa investimento em infraestrutura nos portos e aeroportos”
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Por Aline Maciel

Há mais de três décadas no transporte rodoviário de cargas, a diretora de transporte aduaneiro do SETCESP acompanha de perto os desafios do segmento. Nesta entrevista, ela fala sobre infraestrutura, burocracia, liderança feminina e os caminhos para tornar a logística brasileira mais competitiva

Como iniciou sua jornada no transporte rodoviário de cargas?

Comecei muito jovem, trabalhando na transportadora do meu pai. Iniciei fazendo demandas como a emissão de CT-e e Manifesto de carga e depois fui para outros departamentos. Desde que comecei, já se passaram 35 anos nessa estrada com o diesel correndo nas veias.

Apesar de ter optado por uma formação em Direito e Marketing, sempre gostei da área de transporte e logística, e essa é a minha paixão.

O Grupo Terra Nova acabou de adquirir a Terra Master Transporte e Logística. Quais oportunidades estratégicas essa aquisição abre para o futuro?

A chegada da Terra Master complementa os nossos serviços com um portfólio que nós não tínhamos ainda, que é a parte de armazenagem de contêineres através de um terminal destinado à exportação via cabotagem. Temos certeza de que a Terra Master elevará a Terra Nova a um horizonte ainda maior.

O que diferencia o transporte aduaneiro das outras especialidades do setor?

O aduaneiro tem algumas particularidades, pois antes de ser transportada a carga está sob a responsabilidade da Receita Federal Brasileira (RFB). Toda a mercadoria que carregamos, seja na importação ou na exportação, tem uma interlocução com outros países. Isso pode exigir um alinhamento com a Anvisa, Exército, IBAMA e outros órgãos, dependendo do tipo de mercadoria. Precisa ser recolhida uma série de tributos como IPI, ICMS, PIS e Cofins, antes dessa carga estar liberada para ser carregada.

A maioria das transportadoras dessa especialidade tem uma certificação chamada OEA (Operador Econômico Autorizado), cedida pela RFB. Além de ter essa questão ligada a regulamentação, há os requisitos de segurança, ou seja, a operação é um pouco mais burocrática nesse segmento.

Quais erros você observa com frequência em empresas que estão iniciando nesse mercado?

Para iniciar nesse mercado, um dos principais requisitos é cumprir a legislação. É super importante ter em ordem toda regulamentação.

Além dos seguros ligados ao mercado de transporte rodoviário, também existe a necessidade de contratar outros ligados à Receita Federal. É importante ter esse overview antes de iniciar, senão não conseguirá fazer o carregamento nos terminais. Por lá, os requisitos de segurança também são elevados, é preciso ter todas as autorizações para adentrar essas áreas alfandegárias. Não é impossível, mas é bem burocrático.

A diretoria de transporte aduaneiro já se mobilizou contra taxas indevidas de terminais. Como foi esse processo e, atualmente, quais outras pautas são defendidas pela diretoria?

Recentemente tivemos discussões sobre taxas em terminais que inclusive, após essa mobilização, foram revistas. Isso demonstra como a força do coletivo é potente. Além disso, acompanhamos de perto outras pautas relacionadas a situações específicas que ocorrem nos aeroportos, onde temos tido um modelo de trabalho bem amistoso. Conseguimos uma flexibilização importante no aeroporto de Guarulhos para o carregamento e descarregamento.

Por meio da diretoria de transporte aduaneiro, são feitas reuniões bimestrais ou mensais, dependendo do momento. Todas às vezes que entendemos que haverá uma mudança que impactará nossas operações, nos antecipamos para buscar a melhor solução para todos.

Quase não se observa investimento em infraestrutura nos portos e aeroportos. Em contrapartida, o volume de cargas não para de aumentar.”

Considerando as operações em áreas de entrepostos aduaneiros, quais são hoje os principais gargalos enfrentados pelas transportadoras nos terminais?

Nosso principal gargalo é a infraestrutura. Se dermos uma olhada a 360 graus e analisarmos os últimos 20 anos, quase não se observa investimento em infraestrutura nos portos e aeroportos. Em contrapartida, o volume de cargas não para de aumentar. Existe um descasamento destes dois aspectos. Operamos há quase três décadas, com o mesmo espaço, a mesma quantidade de docas, as mesmas rodovias. Embora tenhamos observado alguns inputs de melhorias de processo por meio da tecnologia, ainda há muito a ser feito.

Como é gerir uma transportadora em um setor tão complexo e regulado?

É bem desafiador, e este ano está bem complicado equilibrar todos os pratos e atender também às necessidades do embarcador, do importador ou exportador.

Muitas vezes, acabamos assumindo um papel que nem é nosso: de explicar ao cliente que determinada legislação também se aplica a ele, que seu cumprimento não é opcional e que é preciso se adequar. E a gente lida com resistências nesse sentido.

O nosso setor é pujante, porque tem que ter muita garra para conseguir atender os requisitos e seguir mantendo os negócios, a todo vapor.

Recentes mudanças na política tarifária dos Estados Unidos têm gerado incertezas no comércio internacional. De que forma esse cenário afeta o transporte aduaneiro?

Como estamos dentro do ecossistema do importador e exportador, sentimos uma redução de processos, porque, dependendo do produto, a taxação inviabiliza a comercialização. Toda vez que há qualquer movimentação em nosso país de tributação interna ou externa, a gente sempre sente os impactos. Depois, o mercado se adapta. Na primeira vez, que tivemos a aplicação do tarifaço, tivemos uma redução momentânea de 30% nas nossas operações.

Passado um tempo, isso acabou se acomodando, os clientes fizeram novas negociações com outros países ou abriram novas linhas de produto e aí voltamos a operar nos mesmos patamares de antes.

Após conhecer de perto os modelos logísticos do Leste Asiático na viagem técnica do SETCESP, quais investimentos deveriam ser prioridade para o Brasil ganhar competitividade?

O que entendi dos países que visitei é que a chave do sucesso é infraestrutura com planejamento. Eles planejam bem e são muito ágeis na execução. O avanço é rápido, diferentemente daqui onde os projetos ficam engavetados quando troca o governo.

Lá, mesmo que haja mudança dos tomadores de decisão, o planejamento segue. Fiquei encantada com esse modelo deles: planejou, orçou, executou e ponto.

Além disso, a tecnologia também é muito forte nestes países, máquinas operam sem a intervenção humana através de robótica.

O interessante é que uma mulher vira exemplo para a outra. Da mesma forma como aconteceu comigo

Você foi a primeira mulher a assumir a diretoria de aduaneiro. Como foi encarar esse desafio?

Foi uma honra receber esse convite. Confesso que, quando me chamaram para assumir esse cargo, a primeira coisa que pensei foi que não estava pronta. Na ocasião, a Ana Jarrouge [presidente executiva do SETCESP] me encorajou. Ela me disse: ­­­ — Você está pronta sim, e se você não tiver, você vai ficar ao longo da jornada.

Essa posição que ocupo tem me permitido olhar para minha empresa e para o setor com uma visão coletiva mais profunda. É uma grande oportunidade de representar a divisão aduaneira do SETCESP perante outras instituições.

No ano passado, pela primeira vez, o saldo de profissionais mulheres no TRC superou o de homens. Como têm sido as mudanças na participação feminina no transporte ao longo dos anos?

Enxergo que um crescimento que antes era gradativo, hoje é exponencial. Levanto essa bandeira de mais mulheres no transporte. Na Terra Nova, acompanhamos esse avanço de perto, incentivando a contratação de mais mulheres, especialmente para a operação. Hoje, já contamos com motoristas e operadoras de empilhadeira mulheres.

O interessante é que uma vira mulher exemplo para a outra. Da mesma forma como aconteceu comigo. Se fosse depender só do meu ímpeto para tomar a decisão de aceitar ser a diretora de aduaneiros, eu não teria aceitado, mas alguém me incentivou. Então, tento ao máximo fazer isso também com outras mulheres.

Qual mensagem final poderia deixar para nossos leitores?

É muito importante para um empresário estar dentro do SETCESP, por isso, convido todos a participarem dos eventos, acompanharem os informativos e aproveitarem os conteúdos técnicos e orientativos disponibilizados. Além de apoiar o desenvolvimento das empresas, a entidade nos mantém atualizados sobre a legislação e as mudanças que impactam o setor.

Clique abaixo e assista à entrevista na íntegra .


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