Inadimplência recorde indica quadro desafiador
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Com quase 80% dos moradores de capitais endividados, setor produtivo enfrenta queda na demanda e escassez de crédito

No nível mais alto desde meados de 2022, o endividamento e a inadimplência das famílias brasileiras atinge índices preocupantes. A dor de cabeça de muitos consumidores deve prolongar-se ao longo de 2026, freando o ritmo da atividade econômica e os investimentos. O último dado do Banco Central, de fevereiro, apontou 49% de endividamento das famílias, mostrando que quase metade da renda que acumularam em 12 meses já está comprometida por dívidas.

Entre moradores das capitais, a pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), usada como termômetro da capacidade de pagamento, alertou que 79% dos entrevistados têm alguma dívida na família, contra 76% apurado em janeiro de 2025. Foi o maior endividamento registrado na série histórica. O levantamento revelou ainda que o percentual de pessoas que se consideram “muito endividadas” também aumentou.

O quadro deve seguir desafiador no curto prazo. “Vislumbramos uma desaceleração no mercado de trabalho, então, o patamar de endividamento será ruim em 2026. Os efeitos dos cortes de juros de março só serão sentidos no final do ano ou em 2027.

Do ponto de vista da oferta do crédito bancário, no entanto, a situação está em linha com o ciclo monetário, de forçar a desaceleração para colher uma inflação mais baixa”, conta Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, que projeta um IPCA anual de 3,8%.

Para ele, os juros atos são o maior problema. O Brasil está entre os países com os maiores juros – real e nominal – do mundo, o que traz sérias dificuldades para pessoas e empresas. A grande parcela de endividados preocupa a FecomercioSP.

De acordo com a última Pesquisa do Endividamento e da Inadimplência (PEIC) da entidade, mais de 3 milhões de famílias estavam endividadas na cidade de São Paulo em janeiro. “Nosso risco é o consumidor não entrar na loja porque não tem crédito. Boa parte das vendas é parcelada na modalidade”, diz Fábio Pina, assessor da federação. O cartão de crédito permanece, de longe, o tipo de compromisso mais comum. Em seguida, vem o financiamento imobiliário e os carnês. Pina acrescenta, no entanto, que não vê o problema como grave. “Não se trata de um superendividamento.

O comprometimento da renda, na casa dos 30%, ainda é sustentável”, pondera. Na visão do economista, o governo deve focar no ajuste fiscal. “O Brasil não pode se furtar a fazer ajustes críveis, que devem ser estruturados de passo em passo. Pode chegar o momento em que nem a Selic alta vai segurar a inflação.

Sem os cortes, o risco de aumento na inadimplência é alto no futuro”, calcula. Ele estima que o ano deve transcorrer sem fortes contrações na oferta do crédito ou desemprego generalizado, mas também sem picos no consumo.

O número elevado de brasileiros pressionados por juros que podem ultrapassar 400% ao ano, como no cartão rotativo, vem aumentando a procura pelo Procon na Bahia. O órgão faz mutirões anuais de negociação de dívidas pelo Estado com a participação de entidades parceiras, como a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Em 2025, 43% das 80 mil reclamações registradas envolviam assuntos financeiros.

“O problema cresceu com a oferta agressiva de crédito que vimos ultimamente. Acabou que a situação saiu do controle e a inadimplência subiu. O cidadão chega sem dinheiro para pagar todas as faturas e, no balcão, fica em dúvida sobre qual delas pagar”, comenta Adriana Menezes, diretora de atendimento do órgão público. “A gente tenta orientar. Os mutirões atendem milhares e ajudam a resolver problemas, mas educação financeira é fundamental”, opina.

Já o Procon do Rio de Janeiro oferece apoio em situação de superendividamento, além de promover mutirões. Neste caso, o reclamante é encaminhado ao Núcleo de Prevenção e Tratamento do Superendividamento, estrutura especializada na sede da autarquia, onde servidores realizam o diagnóstico da situação, prestam orientação e promovem audiência de conciliação com os credores ao mesmo tempo para criar um plano de quitação proporcional à capacidade do devedor.

O Secretário de Estado de Defesa do Consumidor, Gutemberg Fonseca, alerta para o crescimento acelerado do endividamento de risco com as apostas em bets e jogos on-line, que vêm se intensificando desde 2023. Para ele, o fenômeno combina vulnerabilidade comportamental, fácil acesso ao crédito digital e falta de mecanismos de controle.

Em Pindamonhangaba (SP), a terapeuta integrativa Raquel Sá Teles aceitou a oferta de um banco digital e contratou crédito pelo celular. Ela usou o recurso para compras no supermercado e quitou despesas domésticas ao longo de oito meses. Hoje, ela não sabe como e quando será capaz de honrar o compromisso, que soma cerca de R$ 5 mil. Mãe solteira, Teles não tem trabalho fixo e sua renda de autônoma não tem sido suficiente para cobrir os gastos da casa. “Tenho uma adolescente de 15 anos e um filho de nove. Não tenho como sair de casa para trabalhar e deixá-los sozinhos”, lamenta. Sem clientes suficientes, ela reclama que o custo de vida caro e a renda baixa dificultam o equilíbrio das contas.


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