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23 de Janeiro de 2019 – 14h50 horas / Correio Braziliense

Com um orçamento anual de R$ 970 milhões, o Serviço Social do Transporte (Sest) e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Senat) decidiram suspender investimentos da ordem de R$ 308 milhões em novas unidades e contratação de pessoal. O motivo é a sinalização da equipe econômica do governo de Jair Bolsonaro, durante o período de transição, de promover mudanças no chamado Sistema S, do qual as duas entidades fazem parte.

 

O sistema é o conjunto de organizações das entidades corporativas voltadas para o treinamento profissional, assistência social, consultoria, pesquisa e atua em várias áreas, além dos transportes: comércio (Sec/Senac), indústria (Sesi e Senai), agricultura (Senar), cooperativismo (Sescoop) e micro e pequenas empresas (Sebrae).

 

A equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, já chegou a afirmar que estudaria acabar com a contribuição compulsória das empresas, com o objetivo de baixar os custos de contratação para gerar empregos. No entanto, de acordo com a diretora-executiva nacional do Sest Senat, Nicole Goulart, o assunto ainda não foi retomado depois da posse do novo governo. “Por conta da preocupação com o futuro, suspendemos os investimentos que estavam sendo feitos”, disse. O valor total que deixou de ser aplicado é de R$ 308 milhões.

 

Nicole destacou que já foram comprados 28 terrenos, para os quais os investimentos em infraestrutura e contratação de pessoal foram suspensos. Além disso, Sest e Senat deixaram de comprar outros 34. Segundo a diretora, os serviços recolhem, compulsoriamente, 2,5% do faturamento das empresas, por meio da Receita Federal, que fica com um percentual de 3,5%. “Isso garante um orçamento de R$ 970 milhões, mas íamos investir R$ 1,07 bilhão, porque temos fundos de reserva”, detalhou. Do total, R$ 600 milhões vão para serviços de saúde e R$ 470 milhões para educação.

 

Os investimentos garantem o atendimento dos trabalhadores no setor de transporte, e de suas famílias, com cursos de qualificação, obrigatórios, como o de jovem aprendiz, e com serviços de odontologia, psicologia para tratar problemas com drogas e álcool, comum entre os caminhoneiros. “Como não têm plano de saúde, os motoristas são beneficiados pelos serviços do Sest Senat”, afirmou. O temor é que, sem os recursos, os serviços fiquem sem ter como prestar o serviço, ocasionando pressão no Sistema Único de Saúde. “A preocupação é quem fazer nosso papel?”, indaga.

 

No ano passado, os serviços garantiram 10,6 milhões de atendimentos, sendo 5,6 milhões na área de saúde. “Cada S tem suas peculiaridades, como atendemos o setor de transportes, nossas unidades são espalhadas”, ressaltou a diretora. Assim, o caminhoneiro pode começar um tratamento odontológico, por exemplo, em uma região do país e completá-lo em outra.

 

“A sinalização de um possível corte, nos deixa em suspenso. Não sabemos se podemos construir as unidades, ou contratar mais dentistas. Demanda temos. Há filas para atendimento. Mas não autorizei as contratações”, assinalou Nicole.

 

Segundo os diretores da Confederação Nacional do Transporte (CNT), as pesquisas de satisfação com os serviços deram resultados extremamente positivos: 90% entre os usuários e cerca de 80% entre empresários.

 

Continuidade

O diretor executivo da CNT, Bruno Batista, ressaltou que a pesquisa do perfil dos caminhoneiros mostra que os motoristas têm em média 44,8 anos. “Os jovens não se interessam pela profissão. Precisamos atraí-los para dar continuidade ao serviço de transporte no país. Os caminhões modernos são altamente tecnológicos e os motoristas precisam ter cursos de aperfeiçoamento. Hoje um caminhão custa R$ 700 mil, é um risco colocar esse patrimônio na mão de gente não treinada”, observou Batista.

 

Na área de saúde, acrescentou o diretor executivo, os caminhoneiros são muito sedentários, por isso têm propensão à obesidade e problemas de coluna. Por isso, os serviços oferecem nutricionistas e fisioterapia.

 

Os diretores da CNT refutam os argumentos do novo governo de que falta transparência no Sistema S. “Todos os dados estão no site e há uma sala com acesso em tempo real”, apontam. Nos painéis dispostos na sala, na sede da CNT, em Brasília, há informações sobre atendimentos, receitas, despesas, saldo bancário e quadro de pessoal de todas as unidades Sest Senat do país.


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