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23 de Março de 2018 – 14h53 horas / Correio Braziliense

Em um cálculo conservador, como explica o pesquisador Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), a violência consome por ano 5,9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o mesmo que a riqueza gerada pelos estados da Região Norte no ano passado. Em 2017, esse valor teria chegado a R$ 389,4 bilhões, ou o equivalente a 13,5 vezes o orçamento previsto para o Bolsa Família de 2018.

 

Mas o estudioso, especialista na área, diz que a metodologia usada por ele não leva em consideração, por exemplo, os impactos no turismo, o aumento do custo de produção e do custo de logística, além do comprometimento da capacidade laboral do brasileiro, vítima direta ou indireta desse ambiente. “Como a criminalidade vem aumentando, certamente esses valores são muito maiores”, avalia.

 

Com o agravamento da crise de segurança, vários setores sentem os impactos. O do turismo tem visto parte dos clientes que buscavam viagens para o Rio de Janeiro e Fortaleza simplesmente cancelarem seus pacotes. Outros, como lembra Cerqueira, riscam o Brasil da lista de destinos a cada episódio mais ruidoso de criminalidade divulgado na imprensa internacional e nas redes sociais. “Imagine quanto a economia perde com a violência cada vez que a imagem do país é enxovalhada”, pondera o especialista do Ipea.

 

O empresário Henrique Mol, presidente da holding Encontre sua Franquia, atua nos segmentos de turismo, beleza e estética, alimentação, seguros, entretenimento e cuidados automotivos, com cinco diferentes marcas e cerca de 1 mil franqueados. Segundo ele, alguns setores vêm sentindo mais o crescimento da violência do que outros. Turismo e seguros são os mais sensíveis.

 

“Fortaleza e Rio de Janeiro são os principais destinos turísticos do país e o número de pessoas viajando para esses lugares vem diminuindo”, afirma o executivo. “Preocupados com a segurança, os turistas buscam outras opções. ” Para não perder clientes, o empresário precisou reforçar o treinamento da área comercial da rede de franquias, com cerca de 500 unidades, para que passasse a investir na divulgação de outros destinos e assim garantir o faturamento.

 

Mas houve também quem optasse por cancelar o pacote para o Rio de Janeiro, mesmo tendo de pagar multa. No caso de Fortaleza, explica, tem sido possível contornar em parte o problema do medo da criminalidade com a oferta de pacotes que incluam a hospedagem em praias mais policiadas, como a de Meireles. “Não tivemos impacto na receita da Encontre sua Viagem porque as pessoas estão trocando um destino perigoso por outro, mas tivemos de investir nesse esforço comercial para não perder venda”, diz Mol.

 

A rede de corretoras de seguros Bidon, também da holding de Mol, sentem o impacto nas vendas no mercado carioca. Segundo o empresário, várias seguradoras deixaram de oferecer seguros para veículos no Rio ou o valor da apólice ficou tão caro que inviabilizou a contratação do serviço. Para tentar minimizar as perdas, conta, os franqueados têm aumentado a oferta de seguros de vida e residenciais.

 

A situação no Rio é tão difícil que no momento Mol negocia com dois interessados em abrir uma franquia da Suave, de salões de beleza e estética, em Portugal. “São cariocas que querem deixar a cidade e tentar a vida em outro lugar, longe da violência. Não imaginei que chegaríamos a esse ponto”, lamenta.

 

Economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fabio Bentes confirma que os serviços turísticos estão entre os que mais sentiram os efeitos do aumento da violência, especialmente no Rio de Janeiro. Só nessa atividade, as perdas, segundo ele, chegaram a R$ 1 bilhão em 2017. “A atual situação do Rio serve para espantar a fonte de receita do turismo, tanto viajantes brasileiros quanto estrangeiros”, diz.

 

Mas Bentes lembra que os efeitos colaterais da violência são bem mais amplos. Seus impactos afetam o comércio como um todo. “A criminalidade crescente tira as pessoas da rua por medo de serem vítimas”, afirma. O comércio, por sua vez, fecha as portas mais cedo por medo. O economista lembra que nem mesmo campanhas publicitárias das cidades mais afetadas pela onda de crimes ajudarão a melhorar suas imagens enquanto o problema estiver em um momento tão delicado como o que se vê hoje.

 

O representante da CNC alerta para uma parte muito sensível da economia nessa onda crescente de violência urbana: a dos empreendedores que chegaram ao mercado durante a crise e escolheram abrir um negócio como alternativa à falta de oportunidade no mercado de trabalho. “A maioria optou por um negócio na área de serviço, que justamente é uma das mais afetadas. Como muitos não têm experiência à frente de um negócio e começaram com pouco fôlego financeiro, pode ser que não consigam passar por um momento tão difícil”, avalia Bentes.

 

Transportadoras

O transporte de cargas tem sido muito visado por criminosos. Como consequência, as transportadoras têm absorvido o impacto maior dos custos com segurança, aumento de tecnologia e seguro, como conta Adriano Thiele, CEO da JSL. A empresa trabalha em 16 setores da economia e, segundo o executivo, o impacto da violência é diferente para cada atividade e região onde atua. “Para cada tipo de carga e de cliente, há um plano de gerenciamento de risco. O que temos sentido é que as seguradoras têm sido mais exigentes nesses planos para alguns tipos de cargas e regiões”, afirma. As áreas mais visadas estão nas regiões metropolitanas do Sudeste.

 

Thiele conta que as exigências nos planos de gerenciamento de risco vão desde tecnologias de redundância na carga até escolta armada para os caminhões e a definição prévia de locais e horários de paradas dos veículos. Esses custos adicionais sempre são repassados aos clientes. A JSL tem uma central própria de gerenciamento de risco que monitora dia e noite 100% das cargas. Entre as cargas visadas, segundo o executivo, estão as que são mais fáceis de vender, como os eletrônicos, medicamentos e bebidas.

 

Apesar da gravidade da situação, o aumento da violência no Brasil por enquanto não sensibilizou o ambiente político. Tanto que os pré-candidatos à Presidência até agora não apresentaram propostas consistentes para debilitar a criminalidade de forma definitiva. Mesmo no ambiente federal, o que se vê até agora são paliativos, nenhum plano de segurança concreto que tire o país do mapa da violência.

 

O terror brasileiro

» 71,9% dos homicídios do país foram cometidos com armas de fogo.
» A cada 1% no aumento da proliferação de armas de fogo, a taxa de homicídio aumenta 2%.
» 37,7% é a taxa de homicídios de negros no Brasil — aumento de 18,2% entre 2005 e 2015.
» O Brasil tem média de 28,9 mortes por 100 mil habitantes.
» Entre a população jovem, a média é de 60,9 mortes por 100 mil habitantes.
» 41.817 pessoas morreram em decorrência do uso das armas de fogo no Brasil, em 2015, o que correspondeu a 71,9% do total de casos. Na Europa, esse índice é da ordem de 21%.
» O Brasil registrou 59.080 homicídios em 2015, ou 161 mortos por dia.


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